Tine de Conflens

As caminhadas foram rematadas com esta passagem pela Tine de Conflens, uns lindos bosques perfeitos para um passeio, uma corrida, uma imersão qualquer fora de casa. E pelo cheiro, para uns churrascos também – que maravilha.

A Suiça cuida bem do seu monte, e não conseguia deixar de fazer paralelos com Portugal. Chegaremos lá? A ter caminhos mantidos (o musgo cuidadosamente recortado para não tapar sinalética), as aplicações atualizadas, versáteis, a responder a todos os tipos de caminhantes? A permitir que a montanha esteja ao alcance de todos com transportes públicos a cada ponte do início e de chegada?

Dois dos trilhos que fizemos não eram circulares. Havia sempre forma de regressar ao ponto de partida.

Eu sei que essa realidade está bem longe, mas acredito que há-de chegar.

E ter uma casa aqui? E aqui? E aqui? Etc.

Foi tudo muito bonito, mas depois houve cinnamon buns feitos pela Joui e não se fala de boca cheia.

Three Identical Strangers, Tim Wardle (2018)

Para quem estuda comportamento humano, são poucas as histórias que impressionam (oi?). Toda a história da psicologia social e terapêutica assenta sobre ética de investigação duvidosa. Mas esta está contada de uma forma engraçada. Para começar, lamento mas acabei de desvendar o segredo do porquê destes trigémeos terem sido separados à nascença. Eles e outros. Alguém queria responder àquela velha pergunta nature vs. nurture. E fá-lo de tal forma que nem eles nem as famílias sabiam que estavam a ser alvo de um estudo bem orquestrado.

O curioso é que o estudo nunca devia ter acontecido mas…uma vez que já foi, era interessante saber os resultados! Pois bem, o investigador principal do estudo só deixou para 2066 a autorização para abrirem as caixas com o material da investigação. A história está contada de uma forma em que ficamos a acreditar no poderio da nature, só para depois nos mostrar os viés confirmatórios que nos fazem olhar para as semelhanças, e deixar de ver a importância que a educação e o ambiente familiar realmente tiveram nestes três irmãos.

The Luminaries, Claire McCarthy (2020-)

Comecei a ver por engano. Porque nunca tenho sono quando me deito, vejo uns minutos de uma série.

Se eu contar assim: é sobre garimpeiros que vão para o sul da Nova Zelândia no século XIX – soa interessante, e se decidir ignorar certas coisas, é uma boa série. Mas nunca me deixei destravar desde o início porque não percebi porque aconteciam tantas artimanhas. Porquê aquela implicação logo no início? Demasiado esforço por uma rapariga que se acabou de conhecer. Bem, é isso.

Gorges de l’Areuse

É uma pena a língua portuguesa não ter um equivalente para Gorges que não garganta. Tem? Até que gosto da palavra garganta para descrever sítios assim.

Os nossos hóspedes helvéticos levaram-nos a mais uma caminhada a rondar os 12km, baby-on-the-back friendly. Levaram-nos a Gorges de l’Areuse (mas é a Suiça e podíamos lá ir de transportes públicos) e a caminhada começa logo assim, paw.

Tirando as partes gargantulares, é tipo um postal do Alasca. E por isso, pela facilidade, acalmia e banho de árvores, foi uma caminhada que me limpou a alma, e me fez bem.

É mesmo impressionante como um país pequenino tem tanta beleza natural concentrada. Que bom que assim é.

Dent de Vaulion

Depois de tanto adiamento, viajamos para a Suíça no meio de regras apertadas e burocracias feitas para desencorajar. Testes PCR para ir, testes PCR para vir, preenchimento de formulários e afins, valeu tudo a pena porque o que fomos fazer foi terapêutico. Queríamos estar com a pequena O., a grande J. e o grande Z., e estar no exterior.

Os anfitriões prepararam como sempre, um programa à maneira, ajustado às condicionantes de ter uma bebé que adora estar na rua mas (ainda!) não faz caminhadas longas.

A primeira caminhada, circular e de 10km, começou perto de Le Pont, nas margens do Lac de Joux e subia ao Dent de Vaulion.

O caminho é muito acessível, e nesta altura ainda com resquícios de um Inverno muito longo.

Entre terra batida e estrada estreita (claro que existem sempre alternativas mais aventureiras) lá fomos sempre subindo, apanhando ar e sol na cara.

Prestes a chegar ao cimo o terreno fica mais desnivelado e inclinado, e mais puxado se tiveres de carregar uma bebé às costas. Ótimas coxas, no entanto.

Lá em cima a vista é desobstruída e, claro, deslumbrante. Nos 360º vemos lagos, os Alpes, e belos sítios para almoçar.

A descida foi feita por bosques silenciosos, caminhos que se podem ir escolhendo à medida que se avança graças às indicações bem mantidas e às aplicações que realmente dão apoio ao caminhante.

Ah, que saudades.

Wild By Nature. From Siberia To Australia, Three Years Alone In The Wilderness On Foot, Sarah Marquis (2014)

Queria ler Sarah Marquis há algum tempo. Encontrei a história dela há alguns anos, e fiquei fascinada pela sua profissão: Exploradora da National Geographic. Ainda hoje existem exploradores, e depois de ler esta história compreende-se que ainda há muito por descobrir – com todas as questões éticas inerentes, não vou por aí.

A leitura do livro aconteceu inteiramente em Lausanne, ao lado da Joui que tinha lido o livro na versão francesa. Há muito que não tinha esta experiência, de ir lendo um livro e poder ir comentando o que estava a ler e receber comentários de volta. Acontece que a Sarah Marquis é extremamente dura, corajosa e engenhosa, mas três quartos do livro são um rol de azares tremendos, de homens, mulheres e crianças maus que a maltratam, roubam, e assediam sem parar. A Mongólia é terrível, a Síbéria é terrível, o Laos é terrível. Só na Tailândia e na Austrália é que veio um pingo de luz a esta aventura de três anos. Durante três anos ela andou a pé, sobreviveu ao inimaginável, e parece que o fator humano é que lhe estragou a aventura. Porque quando estava a sós com os animais e as plantas, sentia-se segura.

Apresentou uma definição de aventura engraçada: empreitada arriscada com sucesso duvidoso. Assim foi, com um final feliz. A verdade é que a garra é inspiradora. Foi o livro certo na altura certa, mas não é uma obra prima das viagens.

1 Second Everyday – Março 2021

Um regresso a casa, o regresso do sol, sushi semanal, um reencontro com os meus miúdos, idas ao Picoto, o amolador, um adeus à avó do L., Zoom com a meiadeleite.com e o P., retomar as subidas ao Bom Jesus, o horóscopo da minha mãe, as árvores a florir, uma TV nova, ver concertos de música clássica nela e o meu primeiro teste PCR. Ah, e a notícia de uma grande mudança na minha vida profissional. Venha a Primavera, estou pronta!


A journey home, the return of the sun, the weekly sushi, a reunion with my kids, trips to Picoto, the grinder man, a goodbye to L.’s grandmother, Zoom with www.meiadeleite.com and P., resuming climbs to Bom Jesus, my mom’s horoscope, the trees in bloom, a new TV, watching classical music concerts on that TV and my first PCR test. Oh, and the news of a major change in my professional life. Welcome spring, I’m ready!

It Must be Heaven, Elia Suleiman (2019)

O que eu fui fazer num Domingo à tarde. Vi este filme, e logo a seguir comecei o Playtime do Jacques Tati. Se algum dia virem um a seguir ao outro vão perceber como isto tem a sua graça.

It Must be Heaven tem um Elia Suleiman silencioso, observador, à procura de uma nova pátria. Deixa Nazaré na Palestina e pára em Paris. Deixa Paris e pára em Nova Iorque. Em todo o lado existem absurdos próprios de cada terra. Vizinhos que caçam cobras, cargas policiais exageradas, coreografias inesperadas e ativistas silenciados. Elia num sítio é demasiado palestinano e noutros não é palestiniano o suficiente. Mais vale voltar onde começou, e assim faz.

A música do mês de Março 2021

Para dizer a verdade, a música de Março foi escolhida logo no final de Fevereiro porque foi daquelas que ouvi vezes sem conta na altura. É da egípcia Maryam Saleh, tem aquele beat de trip-hop antigo e gostei muito desta Nouh Al Hamam. E acho a voz dela límpida e bonita, jovem também. Vai aqui acompanhada de uma coreografia, que é sempre uma bela forma de mostrar uma canção.

No início deste ano propus-me a uma coisa entre poucas outras, que foi a de ouvir mais música nova. Estou contente por estar a fazê-lo, e por isso me estar a dar tanto gozo. Isso reflete-se na dificuldade que estou a sentir em escolher só uma música por mês. Por isso aqui vão mais duas.

Houve um fim de semana em que só ouvi Alim Qasimov e me interessei muito pelo mugham, a música tradicional do Azerbeijão. Ainda não percebo bem como funciona, mas entendo que é de composição modal, e os artistas podem ir improvisando, escolhendo os componentes para a peça. O que me parece é que não é propriamente improviso, mas sim a escolha certa do módulo, que pode ser um ritmo entre milhares transmitidos oralmente, cada qual apropriado para cada momento ou ocasião. Aqui temos Alim Qasimov com a filha a cantar Getme, Getme, que pelo que li trata do amor de pai e filha. É belíssimo, arrebatador.

Finalmente, uma música super delicada, e fofa mesmo, é a Mamadou Kanda Keita do Toumani Diabaté com a London Symphony Orchestra. Uma mistura que funciona muito bem de instrumentos tradicionais e clássicos.

Encontro muito conforto nisto de ouvir música cuja letra não compreendo. É mais simples, um go/nogo intuitivo.

The Golden Glove, Fatih Akin(2019)

Editorial use only. in connection to the reporting on the Berlinale 2019 until 15 March. HANDOUT /NO SALES Mandatory Credit: Photo by Gordon Timpen/Warner Bros Ent/EPA-EFE/REX/Shutterstock (10101670b) A handout photo made available by the Berlinale shows Margarethe Tiesel and Jonas Dassler in a scene from the movie ‘The Golden Glove’ (Der Goldene Handschuh) by Fatih Akin. The film runs in the official competition of the 69 Berlin Film Festival that runs from 07 to 17 February 2019. The Golden Glove – 69th Berlin Film Festival, Germany – 30 Oct 2017

Este foi o filme mais difícil de ver ultimamente. E ao longo das duas horas que dura, pensámos em parar várias vezes, mas nunca o fizémos. É grotesco. E qual não foi a nossa surpresa quando descobrimos apenas no final que era uma história real.

Hamburgo teve em 1970-74 o seu próprio serial killer. Não muito falado na altura pois matava mulheres esquecidas, mais velhas, prostitutas algumas, outras alcoolicas, todas perdidas. O próprio era um indivíduo completamente desajustado, e o bar da Luva Dourada acomodava-o de alguma forma. A ele e a outros iguais a ele. Estamos nos anos 70, e as marcas da IIGGM ainda estão bem presentes. E este filme mistura más recordações com doença mental e alcoolismo, e é muito difícil de aguentar. Mas não é por não olharmos que deixam de existir.