O Sol Nasce Sempre (Fiesta), Ernest Hemingway

A primeira guerra terminara há poucos anos e os mesmos que combateram nela passeiam-se por Paris. Todos eles ingleses ou americanos, todos desterrados, todos estranhos à terra mas completamente embrenhados no reboliço da capital francesa.

Há raparigas, há muito alcool, música, uma aparente agitação que preencheria os mais jovens. Mas não. Vazios, desmotivados, maldizem Paris, só querem sair de lá. Experimentam Espanha. Os touros. O vinho. O calor. Todos tão genuínos. Os touros. O toureiro. Mas todos perdidos em toda a parte. Uma geração de baratas tontas.

A leitura foi cronologiamente acertada, depois do Grande Rebanho. Mas muito mais lenta, por não haver um enredo na verdade. São todos interessantes, mas estão todos perdidos.

Headhunters, Morten Tyldum (2011)

Tenho-me esquecido de registar tanto o que ando a ler como o que ando a ver.

Há umas semanas, às cegas, começámos a ver um filme norueguês chamado Headhunters. O protagonista tinha tudo para ser feliz, e mantinha-se graças a um part-time sui generis: roubava obras de arte e geria uma pequena rede através da qual as vendia.

Eventualmente – e não por causa do roube de arte – tudo, mas tudo, começa a correr mal. E é tão intenso, incrível e improvável que se fica com a respiração em suspenso bem até ao final.

Foi uma excelente surpresa, gostei muito deste filme, e recomendo-o.

AYA of Yop City, Marguerite Abouet & Clément Oubrerie (2005-2010)

Esqueci-me de falar no livro Aya que li rapidamente nas férias de Natal!

Finalmente uma novela gráfica africana: nunca vi nenhuma! E esta desenrola-se numa Costa do Marfim dos anos 80, em pleno crescimento, com imenso otimismo, liberdade, e quebra de barreiras.

A ilustração enche-nos de cores quentes, quase cheiros quentes e ensina-nos muitas características culturais. Presta muita atenção aos tecidos, à comida, à disposição das casas, etc.

A personagem central é Aya, uma jovem inteligente e bonita que é um bocadinho diferente das suas amigas tresloucadas. Assistimos a mulheres que lutam pela educação, dignidade e emancipação da figura feminina; mas também a jovens que se submetem a tudo para conseguirem o homem rico dos seus sonhos que as levará a Paris.

Acima de tudo é um livro muito divertido, que transmite toda a cultura, toda a côr e toda a mentalidade da época, e tem inclusive um apêndice onde explicam como confecionar algumas receitas, e como e quando vestir os trajes típicos. Ou como segurar um bebé. É muito giro.

Vulnicura

Em 1993 ouvimo-la no Top+ no Canal 1.

Desde então estava sempre na ponta da língua quando me perguntavam quem era a minha cantora preferida. Tínhamos os discos, os singles, posters, livros e as cassetes VHS que apanhavam relíquias pela televisão.

Com o tempo o entusiasmo foi esmorecendo, deixei de saber as canções novas e de ver os novos vídeos. Nunca deixei de acompanhar, mas ouvia muitas coisas novas e diferentes e a minha ponta da língua deixou de ser tão certeira e determinada.

Mas ao ouvir o Vulnicura comecei a sentir o que sentia quando só ouvia música. É límpido, melódico, é crú e é muito simples. E apetece-me rever tudo e tirar o pó à devoção adolescente.

1 second everyday – Janeiro 2015

O primeiro mês do ano teve frequentes idas a Lisboa, por motivos de trabalho e família. Começou com abraços, choro do pequenito (que odeia câmaras). Muitos escuteiros, visitas de quem vive longe, chatices, jantares, azares na estrada, cinema, dei um tempo ao Game of Thrones e comecei a ler os livros que tenho em espera (alguma cama e sofá, muito frio), a fogueira de S.Vicente, matrecos, futebol, mais imperiais que finos – isto, sempre.

O grande rebanho, Jean Giono

É um livro sobre a I Grande Guerra Mundial, mas é diferente. Jean Giono, o autor, participou realmente nela, tendo vivido os momentos com mais carnificina da guerra, nomeadamente a batalha de Verdun (foi um dos 11 sobreviventes da sua companhia).

À sua maneira, retrata-se numa série de personagens oriundas da Provença, França. É uma história camponesa. Os homens convocados para a guerra eram essencialmente os jovens fortes e vigorosos que cuidavam dos campos e dos animais nas aldeias. Depois, iam até os doentes.

O livro começa com uma alegoria, que se desenrola ao longo da história, de um interminável rebanho liderado por poucos pastores, cansados, que não sabem bem o que fazer com as ovelhas fracas, exaustas, feridas. O paralelismo repete-se eventualmente com os soldados. A história fala dos homens de uma aldeia, que se vão, na esperança de que a guerra seja curta, sem saber muito bem o que vão enfrentar. Fala também dos velhos, mulheres e crianças que ficam nessa aldeia. O velho que teme diariamente pelo filho, a esposa que se depara com a lide dos animais e dos campos, sozinha, e a saudade e o desejo que a devora. A amante fresca, apaixonada. As mulheres que recebem a pior notícia amiúde. A aldeia que se reúne em velórios silenciosos e sem corpos. Tudo isto num cenário puro, com cheiros, descritos de uma forma de quem ama realmente a terra, um Alberto Caeiro que ama e cuida. Uma Primavera constante, contemporânea à morte e à lama.

Nas trincheiras acompanhamos também homens e rapazes que veem tanta carnificina, mas continuam dignos e com grandes atos de amizade. Nada realmente explícito e violento, mas tudo isto é refletido nos delírios, nas conversas, nas loucuras e medos dos soldados. Que regressam totalmente diferentes. E que lamentam ver a sua terra com corpos, com ratos, com buracos e com árvores mortas. Eles, camponeses tão amantes da terra, tão simples.

No meio de tudo, é um belíssimo livro, com uma escrita quase sensual, que destaca o amor à terra, à vida e à paz, essencialmente à paz.