PR-TRB6 – Trilho dos Miradouros

Desde Fevereiro que não fazíamos uma caminhada. O estado de emergência foi levantado, a transição entre concelhos possível de novo e o tempo, bem, o tempo tem estado bom demais. Por isso ala, que já fomos tarde.

Os 12km pareciam adequados para quem tinha passado os últimos dois meses em casa, com muito pouco exercício. Mas não. Aos primeiros dois (de 3,5km a subir) já estava a arfar!

O caminho nivelou-se pouco depois e o que vimos foi o Gerês no seu ponto de caramelo. Com a Primavera a abrir giestas roxas e amarelas em flor, a dar as boas-vindas aos zumbidos dos enxames e a mostrar-se espampanante como quem diz “sou fabuloso com ou sem vocês a ver”.

O percurso está muito bem sinalizado, e passa mesmo no meio da Vila do Gerês.

É uma excelente caminhada para quem fica acampado no belíssimo campo do Vidoeiro. Pode fazer num dia o Trilho dos Currais, e no outro dia o Trilho dos Miradouros, do outro lado do rio Gerês.

A minha avaliação: 7/10.

“Quando o bicho mexe”, Mar-Mai 2020

Como sempre, um registo para memória futura. Em tempos de dias pesados e incertos, as noites eram bolhas de patetice, com humor, música e conversas de amigos. “Como o bicho mexe” era o nosso ritual noturno das 23h00, e acabava às vezes para lá das 1h00, mas não fazia mal. Durante aquele tempo aquelas pessoas eram os nossos amigos.

No último dia foi Natal, e foi mesmo muito giro. Cá em casa havia cerveja e amendoins, e juntamo-nos a 170k pessoas a ver esta entrega muito verdadeira que só seria possível aqui e agora (ou ali e então). Refletindo, esta coisa que acontecia em ponto morto e ia para onde deixassem ir, teve consequências boas.

Começamos a ver mais filmes portugueses, a recuperar programas que nem sempre acompanhávamos, conhecemos novos talentos, e anda por aqui um teclado que certamente se deve às surpresas diárias do Filipe Melo.

Foi uma pequena experiência social improvisada, e bateram momentos de orgulho e fraternidade que soam parolos quando se descreve, mas que souberam muito bem. Felizmente, não há registos além do episódio final, e o resto fica na nossa memória.

Tabu, Miguel Gomes (2012)

Este filme é muito europeu. E isto quer dizer que demora a entrar, mas depois é uma bela história contada com muito cuidado ao detalhe.

A iluminação, os planos, é tudo “à antiga” e de certa forma bate certo com a mirabolante história de amor que um narrador conta pela primeira vez.

Um diário Russo, John Steinbeck (1948)

USSR. Moscow. September 1947. Hungarian born photographer Robert CAPA focusing his Rolleiflex in the mirror during a portrait session with American writer John STEINBECK. U.R.S.S. Russie. Moscou. Septembre 1947. John STEINBECK, écrivain américain, photographié par Robert CAPA. Source: https://www.magnumphotos.com/arts-culture/travel/robert-capa-russian-journal/

Não me lembro do motivo que me levou a colocar Um Diário Russo nas minhas wishlist, mas podem ter sido vários. Apesar de não ter lido tantos livros dele quanto isso, adoro a escrita do John Steinbeck. Outro, posso ter lido algures que este livro relatava a sua passagem pela Geórgia no pós IIªGGM.

O mote do livro é encantador. Em 1947 o mundo ainda vive a ressaca da IIª Guerra Mundial. Apesar de toda a gente só querer paz, os preconceitos prevalecem: Os russos são isto e são aquilo. Pois bem, Steinbeck decide tirar isso a limpo, e com um companheiro tão ou mais maluco do que ele – o fotógrafo Robert Capa – ruma a Moscovo. A decisão foi ponderada e pesada após muitos conselhos como “não vás que não são de confiança“, “não te vão deixar escrever a verdade“, “são todos um bando de comunistas e vão-te fazer uma lavagem cerebral“, bem, estou aqui a trabalhar a memória, mas foram coisas deste género.

Eles vão na mesma. Afinal, não conheciam ninguém que conhecesse alguém que lá tivesse estado. Como confirmar que tudo o que ouviam era verdade? Ouvir no ano 2020 esta dúvida manifestada em 1947 faz-me pensar que os media sempre sofreram do mesmo mal, e que duvidar do que nos dizem e procurar as fontes é um exercício antigo – mas não muito ensinado?

O relato é uma maravilha, foi mesmo uma delícia de ler. Claro que os preconceitos não batiam certo com nada. Estes compinchas divertidos comeram e beberam muito. Observaram terras absolutamente avassaladas pela guerra, mas acima de tudo viram como os humanos russos lidavam com isso. E lidavam extraordinariamente bem. Com reconstrução, com ânimo, com ânsia de paz e cooperação tecnológica. Não tinham máquinas e o trabalho manual era duro. Recebiam bem (então na Geórgia…), enalteciam a cultura, os bailes, os teatros e os escritores como poucas nações. Tinham vontade que fossem retratados com verdade. E Steinbeck tenta, e fala nos que tentaram antes dele, com a exceção de nunca terem saído do seu quarto de hotel.

USSR. Stalingrad. 1947.

As fotografias de Capa são maravilhosas, e algumas delas estão aqui. Ficam na memória descrições de sobreviventes de Estalinegrado que estavam completamente partidos, de soldados alemães a reconstruir o que destruíram, mas acima de tudo a mensagem foi bem conseguida, apesar de pouco poética. Termina dizendo: os russos são humanos, e como tal, há humanos maus e humanos bons. E a maioria é boa.

Sangue do meu Sangue, João Canijo (2011)

Até que é engraçado começar a ver filmes e não se fazer a mínima ideia sobre o que são. Aqui a expectativa era de que íamos ficar na mesma no final do filme, mas estávamos enganados.

Sangue do meu sangue remete para mais incesto do que se vê à primeira vista. É também um filme desafiante porque é comum colocar duas conversas paralelas a acontecer em simultâneo, em planos diferentes, que nos obrigam a escolher ouvir uma ou outra.

Realidades difíceis que cruzam tráfico de droga, trabalhos no pingo doce, enfermagem e pedicures a velhas no alpendre de casa.

São Jorge, Marco Martins (2017)

Estamos nesta ronda de filmes portugueses graças à aplicação FilmIN, e que boas surpresas que estão eles a ser.

São Jorge passa-se em 2011, num Portugal submerso em dívida e austeridade. Jorge luta boxe, e é bom, mas isso não interessa nada. Tem um filho que está na berma de partir para o Brasil com a mãe, que não consegue uma vida digna em Portugal. Vive sempre à rasca, e aceita com relutância um emprego como cobrador de dívidas difíceis. É um bom moço, nascido no lado errado das coisas, com muitas escadas para subir.

A música do mês de Abril 2020

Os Low marcaram o mês de Abril. Ouvimo-los muitas vezes enquanto cozinhamos, almoçamos ou jantamos. É uma banda que nos acompanha desde há muitos anos, e eu e o L. temos experiências diferentes com eles. Ouvimos mais um álbum do que outro, mas são uma presença estável nas nossas vidas de consumidores de música, e é reconfortante saber que ainda aí estão. Ouvia-os em cassetes que gravava e foram uma boa companhia nas minhas idas para o liceu. Foi muito agradável recupera-la.

Cause if we knew where we belong
There’d be no doubt where we’re from
But as it stands, we don’t have a clue
Especially me and probably you