A Vegetariana, Han Kang (2007)

Este livro é bem fininho mas lento de digerir. É dividido em três partes: a primeira é contada na primeira pessoa, o marido; a segunda é contada por um narrador, sobre o cunhado; a terceira é de novo contada por um narrador, sobre a irmã. Esta história passa-se na Coreia do Sul, e começa com uma mulher a decidir tornar-se vegetariana para tentar parar uns sonhos macabros que tinha, e que a impediam de dormir.

Tornar-se vegetariana numa sociedade como a coreana não é bem aceite no livro, e pelo que li não é particularmente fácil ainda hoje em dia, na vida de jovens que o fazem. Isto não é relevante. O livro apesar de se chamar A Vegetariana, não é de todo sobre vegetarianismo. É sobre essa decisão, e o efeito que teve na família direta. Até ao momento em que se declara vegetariana, a protagonista não se manifestava de todo, e por isso era uma boa esposa. O marido começa-se a perguntar, quando é que isto tudo começou? E não faz ideia. O pai decide bater-lhe como sempre fez, para lhe abrir a boca. Ela decide persistir na decisão de não comer carne e de não tolerar que forcem. Corta os pulsos e é ajudada pelo cunhado.

O cunhado, artista, intelectual, é casado com uma esposa bondosa, forte, que o sustenta e que mantém um império de cosméticos com afinco. A partir do momento que descobre que a irmã da esposa tem uma mancha de nascença não consegue controlar um impulso criativo a par de um impulso animal. De a possuir depois de lhe pintar o corpo.

A irmã sempre a protegeu. Sempre protegeu e cuidou de toda a gente e agora, com a irmã na casa de saúde a achar que é uma árvore e que não precisa de se alimentar, é a única que a visita e que se preocupa com ela. Esta irmã pergunta-se quão livres estarão a irmã e o marido por se terem entregado aos seus impulsos. Também ela os tem. Também ela se esconde na banheira, vestida. Também ela decidiu abandonar o filho, um dia. Mas há certas convenções que a impediram sempre de o fazer.

Tripartido, com várias perspetivas sobre a doença mental, este livro é mais do que isso. É sobre o peso colocado nas mulheres numa sociedade como a coreana, é sobre o abandono a que são entregues os diferentes, e é sobre a liberdade de quem confia nos seus impulsos. Sendo que nenhum dos lados é feliz.

The Monuments Men, George Clooney (2014)

No seguimento do Catch-22, e numa noite sem sono, comecei a ver o Monuments Men, também realizado por George Clooney. O filme é médio (tem alguns diálogos bem hollywoodescos), mas conta uma história grandiosa.

Durante a IIª GGM, o Hitler tinha um plano muito bem preparado para erguer o seu museu de arte, com arte roubada ao longo da guerra. O roubo era, claro, sistemático e bem organizado, e as obras de arte eram escondidas em pontos estratégicos onde não se detereorariam enquanto aguardavam a abertura do dito museu. A arte estava no fundo das prioridades dos países em guerra, mas um professor americano estava extremamente preocupado e decidiu propor um grupo de artistas, curadores, arquitetos e restauradores de arte para resgatarem estas obras de arte pela Europa. Sem qualquer suporte material, e achando que estavam a assumir uma missão suicida, o governo americano lá autorizou a ida destes senhores para um cenário de guerra.

As obras resgatadas foram milhares, e a missão deles foi belíssima e só há muito pouco tempo tornada pública. Diziam que os povos podiam perder edifícios, familiares e amigos, mas se perdessem também a sua cultura, passado e história na forma de arte, perderiam a sua identidade. Estamos a falar de obras clássicas (Michelangelo) e modernas (Picasso), sendo que muitas das modernas foram queimadas. Contudo, muitas outras não sobreviveram, e se hoje temos obras de arte nos museus mais famosos, muitas delas devem-se à paixão pela arte deste grupo de senhores.

Catch-22, George Clooney, Grant Heslov, Ellen Kuras (2019)

Catch-22 — Episode 101 — Yossarian and his friends train to be flyers in California before being shipped to an Army Air Force base on the Italian island of Pianosa (Photo by: Philipe Antonello / Hulu)

No último (e primeiro para mim) encontro do clube de livros, muito por acaso, todos os participantes partilharam opiniões sobre os últimos livros que tinham lido, e todos eram sobre guerra. Ou IIGGM ou Guerra Civil Espanhola. Na conversa, alguém perguntou “Vocês já leram o Catch-22? É uma sátira à guerra escrita por um aviador da segunda guerra mundial”. O nome era-me familiar, mas essa simples descrição fez-me logo adicioná-lo à lista de livros a ler.

Mal vi na HBO que havia uma adaptação do livro, comecei a ver (agora apercebo-me que quem leu o livro não é grande fã) e gostei muito. O género que descreve a mini série é “dramedy” e é muito assim. Até nos sentimos mal de rir de situações de guerra, mas são todas elas ridículas mesmo para sublinhar as inúmeras pescadinhas de rabo na boca que se encontram nestes eventos de grandes dimensões.

A personagem principal chama-se Yo-Yo (de Yossarian) que começa a sua participação no teatro mediterrâneo com um ataque aéreo sobre Itália. Tem de completar 10 voos para a sua estadia terminar. Logo após a tensão do primeiro ataque, ele só pensa que quer sair, voltar para casa, e tenta tudo, tudo, tudo. Mas ao mesmo tempo que vai tentando, vai aumentando o número de ataques que tem de cumprir – desejos de um comandante sádico e ganancioso. O título vem da sua primeira ideia, que consistia em alegar loucura para não continuar a combater. O problema é que o mesmo artigo do regulamento n.º 22 dizia que sendo louco, não podia lutar, mas um louco não alegaria insanidade.

Boa mini-série!

“That’s some great catch, that catch 22…”

Museo Thyssen Bornemisza, Madrid

Fränzi in front of Carved Chair, 1910. Ernst Ludwig Kirchner
Ukrainian Peasant Woman, 1910-1911. Vladimir Burliuk

Há uns dias demos uma escapadela ate Madrid. O plano era muito simples, e era o de comer e beber. Dito isto, há que intervalar estes eventos para o bem da nossa saúde, e fizemo-lo com passeios pelo parque e a ida ao museu Thyssen Bornemisza. Apesar de nunca se ficar a conhecer um museu que se visita uma vez numas horas apressadas, já tínhamos ido ao Museu do Prado e ao Museu Rainha Sofia. Este foi-nos recomendado, e foi um deleite. Vimo-lo relaxados, começamos com a pintura moderna, e que bela coleção. É sempre refrescante sentir o impacto que alguns quadros têm em nós. Tirei fotografias a estes dois, que foram os que me deixaram mais a olhar.

Depois, na loja, fui atraída por esta pintura da Georgia O’keeffe, cuja print até trouxe para casa. Pensava que tinha descoberto uma pintora preferida nova, mas afinal foi só mesmo um ponto isolado (pelo menos o que vi no google não me agradou tanto como imaginava).

Pink And Blue Mountain, 1916. Georgia O’keeffe

Deve ser muito interessante viver perto de um museu com grande obras numa coleção permanente e visitá-lo amiúde. Os gosto mudam, os quadros revelam coisas novas a cada visita, e é uma experiência que gostava de ter.

Franco: The Brutal Truth about Spain’s Dictator, Isabel Andrés and Ina Kessebohm (2020)

O que sabemos sobre Franco?

Eu sabia muito pouco, e é muito injusto saber pouco sobre a história de um país de que gosto muito. A recente ida a Madrid e a passagem de longe pelo Valle de los Caídos aguçaram a curiosidade. Este documentário está disponível na Netflix, não é extraordinário, mas é informativo. Franco era sanguinário, implacável, e vingativo. Um ser humano detestável, sem qualquer escrúpulo para pilhar, matar e enganar. O povo espanhol também era serenado com terror, desaparecimentos, torturas e negócios inacreditáveis a envolver o roubo e venda de crianças com o conluio da igreja católica.

A ditadura foi longa, levada ao colo por uma impulsão económica muito ajudada pelo turismo alemão e pelo dinheiro enviado pelos emigrantes espanhóis. Não terminou com a glória de uma revolução. Franco morreu, e o herdeiro do seu trono, o rei Juan Carlos, apesar de ter sido educado por Franco, não se deixou contaminar pela ditadura franquista e rapidamente propôs a transição do regime para uma democracia parlamentar.

Squid Game, Hwang Dong-Hyuk (2021)

Voilá, vi a série do momento que agarra logo com o improvável e simples. As premissas simples são muito cativantes. Ter de jogar jogos de criança para sobreviver e ganhar dinheiro. O que está por trás é que é muito mais complexo e com as suas camadas. A desigualdade social, a acumulação de crédito, o beco sem saída de muitos que os conduz ao desespero de jogar seis jogos infantis para ganhar um prémio em dinheiro.

Eu gostei de a ver, o final é que foi um pouco meh. Mas percebo, e ficam muitas questões em aberto.

Sei porque canta o pássaro na gaiola, Maya Angelou (1969)

Que maravilha de escrita. Não sei porque me identifiquei tanto com a escrita de Maya Angelou. Talvez por ter um pouco de mágico, um pouco de cru, um pouco de bruta, um pouco de todos os sentidos despertos. Cada parágrafo parece uma pérola de saber, e aprendemos ao mesmo tempo que a pequena Maya.

Este é um livro autobiográfico – o primeiro de sete, e conta a sua infância até aos 16 anos. Pela amostra, percebe-se bem porque precisou de sete para contar as suas experiências, as suas reflexões e as aprendizagens que retirou de todas ela. O retrato que ela nos mostra é o dos Estados Unidos nos anos 30 e 40. Racistas, segregacionistas. Marguerite viveu a sua infância com a avó, um tio e um irmão no sul do país. É muito triste acompanhá-la nos passos que a levaram a perceber rapidamente como não se ajustava à sociedade. Como desde pequena observava injustiças.

Enquanto leitora entrei um bocadinho dentro da cabeça dela e…é muito poderoso. Ter mais noção da antecipação com que viviam os negros – e vivem, caramba. O cansaço que é antecipar todos os passos. Se vai escurecer é melhor precaver dormida. Se vais ao bairro branco é bom que regresses à hora combinada. Se te doem os dentes prepara-te para andar 40km de autocarro.

A miúda sensível virou mulher de garra, e deu muito gozo acompanhar esta evolução com as suas palavras. Grande!

A guerra não tem rosto de mulher, Svetlana Alexievich (1985)

Comecei um canal direto de troca de livros com a E. Apercebi-me de uma série de coisas: como é bom receber recomendações de livros por parte de um ser humano ao invés de um algoritmo (e poder retribuir); e como leio muito poucas autoras. Se me perguntarem autores favoritos, a resposta é imediata e é masculina no top, pura e simplesmente porque não me exponho a autoras, e só há muito pouco tempo é que o estranhei. Bem, saí da casa dela com três livros, todos eles de escritoras. O livro que lhe levei foi este.

Um dos que comecei a ler foi “A guerra não tem rosto de mulher”. Não olharia para ele numa livraria, pois o título e a capa não me chamariam a atenção, mas a verdade é que o tópico me interessa, e Svetlana Alexievich é uma jornalista bielorussa que ganhou o prémio Nobel da Literatura em 2015.

Este livro é uma peça de jornalismo de investigação absolutamente arrebatadora. Svetlana passou anos e anos a entrevistar mulheres que combateram com o Exército Vermelho durante a IIGGM. Estas mulheres começaram a guerra como meninas de 13 anos mas terminaram-na mulheres. O ímpeto e ardor comunistas levavam rapazes e raparigas a fugirem dos pais e de casa, a mentirem a órgãos de administração do governo sobre a sua idade e experiência para conseguirem servir na frente. E não aceitavam a mínima proteção por serem raparigas. Por isso temos entrevistas feitas a franco-atiradoras, instrutoras sanitárias, comandantes de minas e armadilhas entre muitas outras. Temos também casos de famílias completas ou de mães que deixaram os filhos com as avós para poderem servir a Pátria.

O livro está construído de uma forma inesperada para mim. É uma peça jornalística, com muito pouca escrita livre da autora. A sua mestria está no saber ouvir, no saber escolher, no registar sem medo. Tratam-se de centenas de pequenos parágrafos a descrever cenas de guerra. São muito difíceis, muito pesados, mas por serem curtos o livro torna-se um page turner facilmente. A primeira edição saiu em 1985, completamente castrada pela censura da URSS. A edição que circula agora, ganhou novas explicações em 2002, incluíndo um certo sarcasmo para com o “lápis azul” da primeira leva.

Sobre o conteúdo, é uma perspetiva muito nova e refrescante de uma representação histórica que temos muito marcada na nossa memória por exposição a livros, a filmes e a documentários. Esta representação é habitualmente feita por homens, ex-combatentes, ex-estrategas. É focada nas batalhas, no equipamento, no número de mortos. A autora estava interessada no outro lado da guerra, lado esse que apenas poderia ser observado e comunicado por mulheres. Os pássaros que cantam na manhã seguinte a uma batalha. A flor num telhado que dá força a prisioneiras condenadas à morte. Os gestos de bondade de soldados russos para com crianças alemãs. A luta corpo a corpo na qual os olhos nunca deixam de se olhar. O som dos ossos a partir. As palavras e mentiras que diziam aos feridos nos hospitais de campanha. A fome, o sono, o amor, o ódio. O querer estar bonita no caso de ser morta em batalha. Enrolar o cabelo em pinhas pequenas. Dormir com brincos. Não querer perder a ideia do que é ser mulher.

Quando estas mulheres eram entrevistadas com os homens ao lado, o discurso era completamente diferente. Eles diziam-lhes o que contar, e que aquelas coisas que elas queriam contar não interessavam para nada. Por isso foi um grande investimento conseguir que elas se abrissem para a autora, e que o fizessem a sós. Rapidamente a vontade de contar o que calaram durante 40 anos fez com que muitas lhe escrevessem cartas e a convidassem para chá e biscoitos.

Estas mulheres sofreram horrores na guerra. Não tinham fardas adaptadas. Calçavam 35 e andavam com botas 42. Só tinham uma muda de roupa interior. Não tinham a mesma facilidade em fazer necessidades fisiológicas nas condições em que estavam. Menstruação nem era considerada e sangravam nas calças, nas únicas calças que ficavam hirtas de sujidade. Algumas com o stress, ansiedade e cansaço não menstruaram durante os anos que estiveram em combate. Muitas ficaram com os cabelos brancos. Todas se alegraram com o dia da Vitória.

Mal elas sabiam que se avizinhava uma nova guerra. Os homens que em combate eram atenciosos e fraternos, esperavam que elas se tornassem femininas e donas de casa de um momento para o outro. Abandonavam-nas quando se apercebiam que tinham uma herança muito pesada. Ganharam a fama de putas da frente e eram gozadas pelo resto da população, que lhes negava alojamento, emprego, alimentação. Durante décadas não foram condecoradas publicamente. E ainda hoje sabemos muito pouco sobre estas forças extraordinárias, que mereciam todo o suporte e toda a admiração.

Têm indubitavelmente admiração de todos os leitores deste livro.

1 Second Everyday – Setembro 2021

Em setembro voltei a muita coisa. Às danças regulares, à corrida regular, e ao escritório pela primeira vez. Despedimo-nos do Verão com esplanadas e cervejas, o aniversário da minha mãe, o regresso às reuniões presenciais ao Domingo de manhã e o casamento do E. e da I. Aqui juntamo-nos com amigos, e foi uma festa muito bonita com sol e dança. Conhecemos o A., fomos à cervejaria da esquina e, sete anos depois de começar – entreguei a minha tese de doutoramento. Foi anticlimático o momento em si, mas eu sei o que significou para mim.


In September I returned to a lot fo things. To regular dance classes, to regular running and gym classes, and to the office for the first time. We said goodbye to the summer with terraces and beers, my mother’s birthday, the return to face-to-face meetings on Sunday mornings, and the wedding of E. and I. Here we got together with friends, and it was a very beautiful party with sun and dancing. We met A., we went to the beer spot close by and, seven years after starting – I handed in my doctoral thesis. The moment itself was anticlimactic, but I know what it meant for me.

Schumacher, Hanns-Bruno Kammertöns, Vanessa Nöcker and Michael Wech (2021)

Claro que depois das histórias de bastidores contadas pelo Drive to Survive, este era um documentário que estava à espera de ver. As histórias dos excelentes são sempre inspiradoras, ora porque vêm de famílias muito humildes, ora porque trabalham que se fartam para continuarem a melhorar. Schumacher tinha o acrescento de se aborrecer com vitórias e gostava dos desafios que pareciam impossíveis – no caso, dar o Campeonato do Mundo à Ferrari.

A história de vida e de família dele é bonita, e é mesmo triste ter tido um acidente na neve que o deixou inicialmente em coma, e agora sem poder sequer comunicar. Não há palavras e nem há lógica, mas está aqui um bonito testemunho do desportista competitivo, casmurro e confiante.