The Leftovers, Damon Lindelof, Tom Perrotta (2014-2017)

A premissa é muito Saramago. A um certo 14 de Outubro, 2% da população mundial desaparece. Esta percentagem corresponde a 140 milhões de pessoas. E esta série é sobre como o mundo decide lidar com isso. Há novos cultos niilistas, novos extremismos, novas crenças para fazer sentido do inexplicável que afetou todas as famílias do planeta.

Dediquei muito tempo e espaço mental a esta série, e não me desiludiu. Aparentemente absurdo, a partir do momento a que nos entregamos a esta série de tom sombrio, torna-se aceitável acreditar em mundos paralelos e novos apocalipses. E se tudo isto acontecer com a banda sonora de Max Richter, ainda melhor. E se tudo acontecer com o desempenho brilhante de Kavin Garvey (Justin Theroux), ainda melhor.

The Leftovers, which gave us 27 and a half hours worth of unanswered mysteries only to end with a scene that felt more profound than any real explanation of the Departure ever could. Because while this is certainly a show about loss, it’s also an unbearably poignant commentary on beliefs, the stories we tell ourselves and others to try to lend some credence to existence. And in that David-and-Goliath-like tussle with the great unknown, sometimes its enough to believe, even if you don’t really know.” (Daqui)

Trainspotting, Danny Boyle (1996)

Num sábado à noite a fazer o zapping dos tempos modernos, encontramos o Transpotting. Lembro-me da primeira vez que o vi, no “Já não há bilhetes” da SIC Radical. Vi imensos filmes assim, que gravava em VHS. Deste lembrava-me de cenas particularmente nojentas, e de ser, em geral, incómodo.

Tal e qual. Maravilhoso de recordar, de reconhecer os atores de tantos outros filmes que vimos entretanto. Pobreza, heroína, sida e esquemas. Um bom retrato dos anos 90 em muito lado para lá de Edimburgo.

What We Do in the Shadows (TV series), Jemaine Clement (2019-)

FX’s What We Do in the Shadows. Photo: Russ Martin/FX

Ai gostei tanto tanto tanto desta série! Queria que toda a gente a visse e acho que os meses que se avizinham vão precisar de momentos como os que ela proporciona. É só rir por rir, humor numa situação improvável, mesmo muito engraçado e divertido.

Quatro vampiros que partilham a casa sofrem os mesmos dramas que qualquer pessoa na mesma situação. Têm um ajudante que tem ascendência de caçadores de vampiros, mas na verdade quer ser um deles. É um autêntico guia a este estilo de vida macabro com muita ternura e “creepy paper” pelo meio.

The Vow, Karim Amer, Jehane Noujaim, Omar Mullick (2020)

Estava com este rascunho já há muito tempo porque não tinha percebido se o documentário tinha terminado ou não. E ainda não percebi, passados 9 episódios.

Isto é uma comidela, porque é um culto que se vai percebendo muito devagarinho, com muitas camadas e ramificações e com filmagens priveligiadas de um dos principais defensores do culto que acabou por ser um dos denunciadores do culto ao FBI.

O culto nunca se denominou como tal. NXIVM de seu nome, é um simples programa multi-nível que começou nos EUA mas rapidamente se disseminou por outros países. Oferecem seminários de desenvolvimento pessoal e profissional através de “Programas de Sucesso Executivo” que são dados a grandes grupos. Quem se junta normalmente é jovem, com dúvidas sobre o futuro, a carreira, ou estão a sair de relações complicadas. São bonitos, energéticos, questionam tudo. Atingiram em particular os famosos de Hollywood.

Foram tão engenhosos e inteligentes. É o culto moderno, usam termos como “tecnologia” quando se referem aos seus métodos, têm infográficos interessantes, um grafismo cuidado, um líder desmazelado e genial, um estilo TED Talk e uma aposta na vida em comunidade como algo que falta hoje em dia.

Toda esta dependência entre uns e outros deu azo a pequenos grupos. Homens que ajudavam homens. Mulheres que ajudavam mulheres. Mas aqui, a história era bem mais abusiva. Uma espécie de escravatura, manipulação mental, entrega de segredos, e marcas a ferro na carne.

Parece impressionante como pessoas inteligentes, bem formadas, com espírito crítico conseguem ceder a isto como a resposta que eles procuravam. Mas o documentário é longo justamente para explicar isto. O caminho é longo, complexo, e vais-te afundando e embrenhando em relações tóxicas, abusivas e numa comunidade que te controla e denuncia.

O New York Times escreveu sobre isso. E o culto foi desmantelado com a condenação do seu líder a 120 anos de prisão, há pouco mais de uma semana.

1 Second Everyday – Outubro 2020

Outubro começou com uma bela estadia em Trancoso, no meio de abóboras, lareira e ar fresco. Com uma viagem à Suiça cancelada, ficamos a conhecer a Serra da Estrela num percurso belíssimo e que ficará certamente na nossa memória. De volta a Braga, as minhas aulas de dança ao ar livre (com máscara) eram certamente um dos pontos altos da semana. Fomos comer uma pizza antes de irmos a Pitões das Júnias fazer uma caminhada com mais nevoeiro do que estávamos a contar. Fui algumas vezes ao Bom Jesus, voltei a ter reuniões presenciais ao ar livre com os miúdos (sempre de máscara). Eles não faltam, estão mesmo sequiosos de atividades em conjunto. Tive direito a uns brigadeiros deliciosos feitos pela M. Recebi uma prenda adiantada e já comecei um novo plano de treino com ela. Houve corridas à chuva e um regresso presencial ao trabalho muito contrariado e incompreendido. O melhor são mesmo os almoços com os amigos, distanciados e mascarados.


October started with a beautiful stay in Trancoso, amidst pumpkins, a fireplace and fresh air. We got to know Serra da Estrela in a beautiful path that will certainly remain in our memory. Back in Braga, my dance lessons in the open air (with mask) were certainly one of the highlights of the week. We went for a pizza before going to Pitões das Júnias to go for a walk more foggy than we were expecting. I went to Bom Jesus a few times, went back to having face-to-face meetings with the kids (always wearing a mask). They are not skipping any of our meetings, which means they are really hungry for activities together. I was entitled to some delicious brigadeiros made by M. I received an advenced gift and I have already started a new training plan with it. There were runs on the rain and a face-to-face return to work to which I was very unwilling. The best are the lunches with friends, apart and masked.

A música do mês de outubro 2020

Apanhei por acaso o Song Exploder no Netflix. Já tinha ouvido um ou outro episódio na versão podcast, e adorava a premissa. Juntamente com o artista autor de uma canção, o narrador desconstruía a peça e analisava-a camada por camada. Isto suscitava conversas sobre a fase da vida em que a letra foi escrita, o acaso que suscitou aquele efeito sonoro ou o capricho a que cedeu para sonificar aquela sensação em particular.

Dos episódios disponíveis, só conhecia uma música, “Losing my Religion” dos REM. Fascinante. Então comecei a ver os outros episódios e esbarrei com esta música da Alicia Keys com o Sampha (que não conhecia – que voz!). A música chama-se “3 Hour Drive” e o episódio é uma maravilha. Tem cenas da gravação no estúdio em Londres, entrevistas com os cantores e o produtor, e fica-se mesmo com um carinho especial à canção. Não só porque é bonita, mas porque agora conhecemos todos os pequenos segredos que a envolvem, e que nem tínhamos reparado antes.

Concluindo, acho que é muito especial ouvir uma canção com calma e dedicação. Dantes era assim que se ouvia. Agora não.

Pitões das Júnias à Fraga de Brazalite

Era dia de Pitões! É sempre uma alegria lá ir, pena a viagem de mais de hora e meia até lá. O dia estava soalheiro e prometia uma bela caminhada por um trilho circular não marcado.

O objetivo era subir à fraga de Brazelite, e as vistas de lá prometiam.

Enquanto subíamos já conseguimos ter uma previsão do que se veria lá de cima, mas já com algumas nuvens.

Fraga de Brazelite à distância.

Desde que fizemos a Fraga das Pastorinhas que adoramos caminhar sobre pedra. O problema aqui é que algumas, com a condensação do nevoeiro que entretanto se instalou à nossa volta, estavam escorregadias.

Porque estávamos com a estaleca da Serra da Estrela, fizemos algum corta-mato e não nos custou muito andar de gatas, de lado, abraçados a rochas para seguir azimutes.

Almoçámos quando chegamos ao marco da fronteira. P de um lado e E do outro, sacamos da sandocha e comemos no meio do nevoeiro.

Como é visível, com um nevoeiro tão cerrado, decidimos não subir a fraga mas contorná-la. Isto foi uma boa decisão, e apesar de não significar muito esforço ou distância a mais, fica sempre um sabor de missão por cumprir.

Aqui vê-se que o nevoeiro estava mesmo só no cimo, e em baixo o sol brilhava de novo, mostrando o esplendor da Serra do Gerês.

O regresso foi muito tranquilo, em caminho mais bem marcado, passando por bosques de carvalho em modo Outono.

A caminhada acabou onde tinha começado, na Pastelaria Pitões. A simpatia não cabe lá dentro, e o pão e os bolos são maravilhosos. Tivemos a surpresa de chegar ao mesmo tempo das natinhas, que comemos com um café. Recomendamos!

Apesar de não termos subido à fraga, pela beleza do caminho, pela tranquilidade que senti durante, pelo bem que me fez e pelo remate na Pastelaria a minha avaliação é de 9/10.

American Murder: The Family Next Door, Jenny Popplewell (2020)

Não vou aconselhar ninguém a ver este documentário. É muito bom, muito cativante, mas deixa-nos com um desconforto também muito grande.

Conta a história de um crime real que ocorreu no Colorado em 2018. Uma mãe e duas filhas desapareceram, e as primeiras suspeitas recaem sobre o pai.

Pelo caminho muitas fotografias, diretos e vídeos no Facebook sobre a vida feliz que levam, como ele é o homem da vida delas. É arrepiante por isto, por toda esta falsidade, enfim, o que já estamos fartos de ouvir.

Finalmente, é impressionante alguém achar que cometer este crime pode libertá-los para uma vida onde se podem sentir melhores com eles próprios.

O extraordinário do documentário é que é um encadeamento muito bem ordenado de gravações da polícia, das redes, de mensagens trocadas, de vídeos de arquivo. Não tem narração, não tem uma única entrevista. É um estilo muito novo e que, graças à crescente quantidade de informação que vamos partilhando e armazenando, poderá tornar-se muito mais popular.

Marie Antoinette, Sofia Coppola (2006)

A belíssima produção que é este filme não merecia que o tivesse visto num ecrã pequenino de um tablet sob cobertores e cobertores para agasalhar uma noite de outono beirã. A verdade é que tinha expectativas mais altas. Senti o filme um pouco frouxo, demasiado simples para tanta pompa. E pensando bem, talvez seja o propósito.

Acompanha a vida da adolescente Marie Antoinette que chegou da Áustria com 15 anos para se casar com Louis XVI e que se torna rainha de França com apenas 18 anos. Perspicaz, rapidamente se apercebe do vazio que é a vida de corte, e aproxima-se de amigas que lhe dão um pouco mais de alegria. Encontra-a no jogo e na farra em geral. Até que (finalmente!) consegue criar uma família e aí decide-se por uma vida mais orgânica, ligada à terra, com aparentes interesses na filosofia de Rousseau. E o resto é história.

Não parece a maluca das descrições que ficaram para a posteridade, apenas um fruto do ambiente, e do isolamento da sua classe em relação ao resto do país.