What To Expect When You’re Expecting Robots: The Future of Human-Robot Collaboration, Laura Major, Julie Shah (2020)

Quando recebi este livro, ele tinha acabado de sair. Comecei a lê-lo quando ainda estava no CCG, e lembro-me de que o comecei a ler porque ia moderar uma sessão sobre interação humano-robot. Entretanto, as coisas mudaram um pouco, incluído o conteúdo do meu trabalho, e deixei-o a marinar longos meses numa mesa.

O livro é sobre a colaboração humana com robots, e conta imensas histórias de experiências que já foram feitas, mas vai também aos primórdios da aviação e da indústria militar buscar exemplos muito interessantes. Aos poucos, vai construindo a realidade atual, e acho que o leitor não tem de ser da área para gostar e conseguir ler o livro. É muito acessível, e tem também imensas referências bibliográficas a fundamentar todos os resultados e histórias contadas.

A realidade atual está muito aquém do que precisa de ter para bem acolher os robots como parceiros no nosso dia a dia. As transformações necessárias são de infraestrutura, mas também sociais. Além do mais, é importante que as empresas não tratem os dados adquiridos como bens proprietários, que não ocultem os erros, mas sim que partilhem tudo para maior transparência e para maior “sabedoria” por parte dos robots. Do nosso lado enquanto humanos, também teremos de aprender a viver com eles, e construir novos modelos mentais para saber não só interagir com eles, mas fazermos tarefas juntamente com eles.

Sou uma early-adopter, e foi muito interessante ler este livro no fulgor do ChatGPT. Tornou-se o meu assistente pessoal de um dia para o outro, e acredito mesmo que uma realidade com robots como assistentes, como ferramentas de entrega, de bem-estar, de qualidade de vida, vai ser uma boa realidade. Há uns detalhes a limar, testes a fazer, e acordos a tratar. Feito isso, acho que vai ser muito giro de ver, e vai mesmo acontecer.

10 anos de Future Artist

Há umas semanas dei conta que este blog existe há 10 anos. É um feito, e muito mudou desde o primeiro post até ao mais recente.

Criei-o numa altura sem rumo, vinda de uma experiência na Eslováquia que relatei noutro lugar. Achava que o que tinha dentro de mim era muito artístico e criativo. E que um dia seria artista. As coisas não podiam ter corrido de forma mais ao lado, mas eu gostei da forma como correram.

Descobri uma paixão pela ciência e pelo método científico que não foi bem explorada no seu tempo. As minhas amigas foram para mais longe. Deixei de tricotar, mas passei a ler mais. Deixei de desenhar mas surgiram os podcasts. Deixei de querer ser etnógrafa mas faço uma coisa muito parecida em ambientes digitais. Fiz amigos novos. Tirei menos e menos fotos. E as pessoas ao meu lado, essas, são as mesmas. E isso é maravilhoso, e está tudo registado neste canto da internet sem fundo.

Não sei porque comecei a escrever online, mas faço-o desde 2003. Tinha um livejournal chamado coracaodearame, inspirado numa novela gráfica do José Carlos Fernandes. No livejournal éramos todos emo, e escrevíamos textos ora nossos, ora de outros, mas sempre crípticos. Foi graças a isso que o meu caminho se cruzou com o do L.

Depois o Cursed Children, com a Joui que sente a mesma necessidade de escrever, relatar. E não é mesmo importante quem lê. Só há muito pouco tempo decidi espreitar as estatísticas. É sim bom para mim, para a minha história, para as minhas retrospetivas e para o meu arquivo.

A comunidade de quem faz o mesmo é muito gira e inspiradora, e já disse que gostava de a estudar. Agora posso.

A outros 10!

Ducks. Two Years in the Oil Sands, Kate Beaton (2022)

O L. oferece-me todos os anos a melhor nova gráfica do ano. Em 2022 foi esta, Ducks. É uma viagem lenta, introspectiva, pela experiência de dois anos da autora a trabalhar nas areias petrolíferas canadianas. Vinda de uma pequena cidade sem empregos, decidiu trabalhar para um armazém de ferramentas da petrolífera, apesar de não ter qualquer experiência. Queria pagar o quanto antes os seus empréstimos universitários, e depois sim, poder trabalhar na sua área relacionada com Artes e Antropologia.

O livro conta-nos coisas bonitas e delicadas que acontecem no meio daquele negrume, mas conta também tudo o que pode correr mal em ambientes tão isolados quanto estes. Sendo um local de trabalho com um rácio de 1 mulher para 50 homens, a autora sofria de assédio diariamente. Olhares, piropos, tentativas de entrada no quarto, e violação. A par disso, teve de lidar com uma solidão e uma sensação de deslocação extremas. Teve também a oportunidade de ver como os outros lidavam com a mesma sensação. A maioria recorrendo a drogas ou álcool. Todos eles filhos, maridos e pais de alguém, e pensar assim fazia-a pensar no que estes sítios faziam às pessoas, e se todos nós temos essas personas detestáveis dentro de nós. Tudo isto se passou entre 2005 e 2008: não havia #metoo, não havia a narrativa sobre a saúde mental, não havia redes sociais, e não havia forma de sair bem de uma queixa feita aos Recursos Humanos da empresa. Então aprendeu a lidar com tudo isso, e a viver com o trauma de tudo o que viu acontecer por lá. Até chegar 2022, e disse tudo neste belíssimo livro de 430 páginas.

Quando termino uma novela gráfica sinto uma coisa muito diferente quando comparo com o que sinto depois de ler um livro. E não sei bem explicar o que é. Mas sinto que a viagem é muito completa, apesar de se (ou justamente porque) deixar muito trabalho na ilustração que temos de captar por nós. Se calhar é mesmo esse trabalho duplicado, de ler e de ver, que nos deixa muito dentro de um universo, e muito empáticos com ele.

O Farol, Robert Eggers (2019)

Vi este filme e lembrei-me deste. Dois homens isolados, sozinhos, em desespero e em profunda solidão. Mas se um era uma história verídica, esta é uma história surreal, com momentos marados. Digamos que terminei com os olhos bem abertos a ver se tinha algum outro par com quem comungar o esquisitismo que estava a sentir. Não tinha, e quando me perguntaram que tal foi o filme só disse “é bem europeu“. Queria eu dizer que, enfim, é a preto e branco, parado, com diálogos ora complicados e dramáticos, ora prosaicos e corriqueiros, e com enquadramentos muitos lindos.

Dois faroleiros são enviados para passar um mês a cuidar de um farol. Um é mais velho, com todo o ar de marujo do mar, e o outro é um silencioso e estudioso noviço. Este último fica encarregue dos trabalhos mais duros naquele recanto agreste, enquanto que o outro não abdica do horário noturno, e não deixa o noviço subir até à lâmpada.

O cansaço e o desespero vão macerando estas almas, que começam a questionar e a duvidar de tudo, começam a contar os seus segredos e roçam a confiança e desconfiança absoluta. Também há visões, sereias, e maldições.

Aquário, Capicua (2022)

As crónicas da Capicua foram um refresco delicioso neste início de ano chuvoso. Atrevidas, bem escritas, bem jogadas, mordazes e do nosso tempo. Identifico-me com (quase) tudo o que escreve. Fala de feminismo, de trabalho não remunerado, de produtividade, da exaustão, da língua portuguesa, de praia e de gelados.

Senti-me particularmente tocada pelas suas crónicas do confinamento. Foi há tão pouco tempo e a nossa vida já é tão diferente. Foi giro ler quando achava que ia durar umas semanas, e depois passaram-se meses. E o que ela sentia, nós sentimos. E o que ela especulava, nós especulamos. Senti-me tão parte de algo a ler isso, e de repente tão distante porque o futuro não foi nada como imaginávamos.

Tem uns doces bem bons de apreciar, e vai ficar ali na estante para quando me apetecer ler odes ao mar, à Itália, à Jane Fonda e às gruas.

Nothing to Hide, Fred Cavayé (2018)

Nestes dias de férias e chuva – uma chuva baça, persistente, sem fim, que me puxou muito para baixo, como não me lembro de alguma vez ter acontecido – dei-lhe forte nas comédias francesas. Vi umas muito más e outras menos más, mas esta, não sendo propriamente uma comédia, tem um trabalho diferente e por isso escrevo aqui sobre ela.

É a história de um grupo de amigos que fazem um jantar e decidem fazer um jogo. Durante o jantar, todos tem de colocar os telemóveis em cima da mesa, e todas as mensagens, chamadas, emails e notificações que receberem têm de ser lidas em voz alta, para todos ouvirem.

No início tudo bem. Entre os casais não há nada a esconder, entre os amigos também não. As mensagens são de descontos e promoções, as chamadas são de trabalho. Mas o tempo passa e a barra começa a pesar sobre todos.

Apesar de um pouco exagerado – no final ninguém escapa e todos têm algo muito grave a esconder, desde tendências sexuais, fantasias, casos extra conjugais – leva-nos a refletir na nossa esfera de privacidade. Se a devemos partilhar com os mais próximos, quem somos nós enquanto indivíduos, o que devemos ou não devemos fazer quando estamos a solo com o nosso telemóvel ou explorações online, e se nos devemos preocupar com estas “regras” de todo.

Gostei da simplicidade do filme, uma vez que o cenário é sempre aquela sala de jantar. E o final é giro.

Wednesday, Alfred Gough & Miles Millar (2022)

A família Addams tem uma presença muito forte nas minhas memórias de criança. Adorava todo o imaginário – gostava também do Beetlejuice, na mesma linha de assustador e engraçado – e sempre gostei da personagem da Wednesday, na altura na figura da incrível Christina Ricci.

Gostei muito de recuperar um pouco dessas memórias ao ver esta nova Wednesday, que conta também com Christina Ricci no papel de professora. O ambiente é muito caricato, o enredo um pouco difícil de acompanhar, não só porque mistura o fantástico dos monstros com o paranormal dos espíritos e tempos passados, mas porque Wednesday é uma adolescente. É impulsiva, não ouve ninguém, comete erros, e o seu papel obriga-nos a acompanhá-la neste leva e traz de hipóteses para as mortes que estão a acontecer na escola de Nevermore. Ao ser uma adolescente fixe que é super inteligente, sarcástica, toca violoncelo e sabe manusear armas de tortura, estou a ver uma trupe de adolescentes a querer adotar o mesmo estilo. Por mim tudo bem, desde que deixem de lado as explosões e piranhas.

The White Lotus, Mike White (2021-2023)

Resisti um bocadinho à série do momento, mas não muito. E adorei, acho que a vi em três dias. O que, sim, implicou deitar-me às 3AM num ou outro dia.

Vi as duas temporadas – a última tem a minha querida Aubrey Plaza – e as duas podem resumir-se assim: um bando de ricos vai de férias para resorts de luxo e queixam-se muito da vida deles, mas quem se lixa é na mesma o mexilhão.

As duas temporadas têm uma curva engraçada. Sabemos desde o início o que vai acontecer no final da semana (uma morte) e a série é a construção de tudo o que aconteceu nessa semana para desembocar nessa morte. No início, empatizamos sempre com alguma personagem. Mas depois todas as personagens fazem asneiras. As dinâmicas entre todos são muito interessantes, e as séries são uma crítica social muito evidente mas nada explícita. Os criados são criados dos privilegiados, e são invisíveis – por vezes entre eles próprios, com mais ou menos peso na consciência.

Tem uma prestação brilhante da Jennifer Coolidge (é a única personagem que transita de série), que dá à segunda série os melhores momentos de tensão.

Against the Ice, Peter Flinth (2022)

Dado o meu fascínio por exploradores dos pólos, este filme é mesmo a minha cara. Trata da história real de uma expedição dinamarquesa enviada em 1910 à Gronelândia com dois objetivos: encontrar o corpo do chefe da expedição anterior – a qual não sobreviveu; e verificar se a Gronelândia era ou não uma única massa de terra, pois os americanos estavam a reclamar parte do território, supostamente dividido por um rio.

Como sempre, corre tudo ao contrário do planeado. Não quero contar o final, mas é uma história mesmo impressionante de sobrevivência, resiliência, sanidade mental e companheirismo.

Muito bonito também ao nível da fotografia, claro.