Headhunters, Morten Tyldum (2011)

Tenho-me esquecido de registar tanto o que ando a ler como o que ando a ver.

Há umas semanas, às cegas, começámos a ver um filme norueguês chamado Headhunters. O protagonista tinha tudo para ser feliz, e mantinha-se graças a um part-time sui generis: roubava obras de arte e geria uma pequena rede através da qual as vendia.

Eventualmente – e não por causa do roube de arte – tudo, mas tudo, começa a correr mal. E é tão intenso, incrível e improvável que se fica com a respiração em suspenso bem até ao final.

Foi uma excelente surpresa, gostei muito deste filme, e recomendo-o.

AYA of Yop City, Marguerite Abouet & Clément Oubrerie (2005-2010)

Esqueci-me de falar no livro Aya que li rapidamente nas férias de Natal!

Finalmente uma novela gráfica africana: nunca vi nenhuma! E esta desenrola-se numa Costa do Marfim dos anos 80, em pleno crescimento, com imenso otimismo, liberdade, e quebra de barreiras.

A ilustração enche-nos de cores quentes, quase cheiros quentes e ensina-nos muitas características culturais. Presta muita atenção aos tecidos, à comida, à disposição das casas, etc.

A personagem central é Aya, uma jovem inteligente e bonita que é um bocadinho diferente das suas amigas tresloucadas. Assistimos a mulheres que lutam pela educação, dignidade e emancipação da figura feminina; mas também a jovens que se submetem a tudo para conseguirem o homem rico dos seus sonhos que as levará a Paris.

Acima de tudo é um livro muito divertido, que transmite toda a cultura, toda a côr e toda a mentalidade da época, e tem inclusive um apêndice onde explicam como confecionar algumas receitas, e como e quando vestir os trajes típicos. Ou como segurar um bebé. É muito giro.

Vulnicura

Em 1993 ouvimo-la no Top+ no Canal 1.

Desde então estava sempre na ponta da língua quando me perguntavam quem era a minha cantora preferida. Tínhamos os discos, os singles, posters, livros e as cassetes VHS que apanhavam relíquias pela televisão.

Com o tempo o entusiasmo foi esmorecendo, deixei de saber as canções novas e de ver os novos vídeos. Nunca deixei de acompanhar, mas ouvia muitas coisas novas e diferentes e a minha ponta da língua deixou de ser tão certeira e determinada.

Mas ao ouvir o Vulnicura comecei a sentir o que sentia quando só ouvia música. É límpido, melódico, é crú e é muito simples. E apetece-me rever tudo e tirar o pó à devoção adolescente.

1 second everyday – Janeiro 2015

O primeiro mês do ano teve frequentes idas a Lisboa, por motivos de trabalho e família. Começou com abraços, choro do pequenito (que odeia câmaras). Muitos escuteiros, visitas de quem vive longe, chatices, jantares, azares na estrada, cinema, dei um tempo ao Game of Thrones e comecei a ler os livros que tenho em espera (alguma cama e sofá, muito frio), a fogueira de S.Vicente, matrecos, futebol, mais imperiais que finos – isto, sempre.

O grande rebanho, Jean Giono

É um livro sobre a I Grande Guerra Mundial, mas é diferente. Jean Giono, o autor, participou realmente nela, tendo vivido os momentos com mais carnificina da guerra, nomeadamente a batalha de Verdun (foi um dos 11 sobreviventes da sua companhia).

À sua maneira, retrata-se numa série de personagens oriundas da Provença, França. É uma história camponesa. Os homens convocados para a guerra eram essencialmente os jovens fortes e vigorosos que cuidavam dos campos e dos animais nas aldeias. Depois, iam até os doentes.

O livro começa com uma alegoria, que se desenrola ao longo da história, de um interminável rebanho liderado por poucos pastores, cansados, que não sabem bem o que fazer com as ovelhas fracas, exaustas, feridas. O paralelismo repete-se eventualmente com os soldados. A história fala dos homens de uma aldeia, que se vão, na esperança de que a guerra seja curta, sem saber muito bem o que vão enfrentar. Fala também dos velhos, mulheres e crianças que ficam nessa aldeia. O velho que teme diariamente pelo filho, a esposa que se depara com a lide dos animais e dos campos, sozinha, e a saudade e o desejo que a devora. A amante fresca, apaixonada. As mulheres que recebem a pior notícia amiúde. A aldeia que se reúne em velórios silenciosos e sem corpos. Tudo isto num cenário puro, com cheiros, descritos de uma forma de quem ama realmente a terra, um Alberto Caeiro que ama e cuida. Uma Primavera constante, contemporânea à morte e à lama.

Nas trincheiras acompanhamos também homens e rapazes que veem tanta carnificina, mas continuam dignos e com grandes atos de amizade. Nada realmente explícito e violento, mas tudo isto é refletido nos delírios, nas conversas, nas loucuras e medos dos soldados. Que regressam totalmente diferentes. E que lamentam ver a sua terra com corpos, com ratos, com buracos e com árvores mortas. Eles, camponeses tão amantes da terra, tão simples.

No meio de tudo, é um belíssimo livro, com uma escrita quase sensual, que destaca o amor à terra, à vida e à paz, essencialmente à paz.

The Imitation Game, Morten Tyldum (2014)

Alan Turing é uma figura incrível, realmente underepped na cultura geral (penso que não tanto nas áreas de investigação de que foi percursor). Mas o que mais me marcou, além da criatividade na resolução de problemas (um computador mecânico!), foi a vida extremamente solitária de Turing, que viveu numa Inglaterra que criminalizava a homossexualidade. Isto aconteceu até 1967. Dezenas de milhar de homossexuais foram condenados a castrações químicas ou pararam na cadeia. O mundo andou muito rápido desde então, mas o que se perdeu com andar rápido demasiado tarde pode ter-nos feito perder avanços incríveis.