José Malhoa

Sétimo Mandamento (segundo fontes informais o título correto da obra é “Não furtar… as uvas do sôr Prior”)

Há uns tempos o L. mostra-me um link e diz: vê a capa do álbum.

Era este quadro de José Malhoa, e só de o ver mesmo com todos os filtros senti coisas. Senti alegria, juventude, Portugal antigo. E é sempre uma maravilha quando as pinturas nos fazem isto.

Acredito em todos os seus quadros, e é como se fosse o melhor documentarista do Portugal do século XIX, início do XX. Cenas de taberna, namoro, e meninas a roubarem uvas do senhor prior. Parecem as histórias dos meus avós – que tinham tabernas – ou da minha mãe que roubava cerejas e laranjas. E aquelas cores garridas e pinceladas rápidas dão todo um movimento e correria à cena.

Enfim. De vez em quando sinto coisas com quadros e gosto muito. Este foi o último.

Hannah Gadsby

Foi a descoberta do fim-de-semana, após recomendação da I. Vi os dois especiais de stand-up comedy disponíveis na Netflix, Nanette e Douglas.

O Nanette é avassalador porque é aí que escrutina o mal que fez ao fazer comédia com os assuntos que mais lhe causaram trauma. Tendo nascido numa vila pequena na Tasmânia, cedo descobriu que era lésbica e que isso era algo de muito errado. A homossexualidade só foi descriminalizada na Tasmânia em 1997. No meio de uma auto-estima muito baixa, abusos sexuais, verbais, violência física, violações e o estigma constante de ser gay, construiu uma carreira onde ridiculariza partes dessas histórias. Mas só em Nanette conta a história completa, e dá um passo em frente quando decide assumir tudo publicamente.

O discurso é muito feminista e provocador. E realmente é estranho ver uma mulher irada com um microfone. É algo muito comum nos comediantes do sexo masculino, mas não o contrário.

Douglas é já mais cimentado no sucesso do anterior, mas com a novidade de ter recebido novos diagnósticos entretanto. É um espetáculo super inteligente e bem delineado, com um prólogo inesperado onde conta tudo o que se vai passar. Muito engraçado, tudo muito bem integrado e com um momento de “sermão” de história de arte muito cómico. Este sermão veio em resposta aos críticos que dizem que ela dá aulas e não faz comédia.

Tomem que já almoçaram.

Gostei muito de conhecer esta, venham mais!

I’m Thinking of Ending Things, Charlie Kaufman (2020)

Até ontem achava que o filme mais comido que já tinha visto era o The Losbter. Mas o que se passou ontem enquanto via I’m Thinking of Ending Things foi além do non-sense do primeiro, foi barata tonta do princípio ao fim. Claro que a primeira coisa que fiz depois foi ler um artigo com as palavras “explained by Charlie Kaufman”, e só então percebi uma série de coisas. Há certos detalhes intrigantes que nos fazem questionar alguns comportamentos, como por exemplo…parece que se interrompem ou antecipam o que estão a dizer. Pois é. E acho que se visse de novo, sabendo o que se deve saber, me ia sentir menos perdida.

The Internet’s Own Boy: The Story of Aaron Swartz, Brian Knappenberger (2014)

Estou a transferir os meus to do‘s pessoais do Trello para o Notion.so e lá pelo meio encontrei alguns documentários que esperavam ser vistos há mais de cinco anos. Um deles era este, sobre o Aaron Swartz e encontra-se disponível aqui.

Foi uma coincidência engraçada ter visto este documentário depois do The Social Dilemma. Aaron Swartz tinha tão bem delimitado o que era certo e errado na internet, aliado a um grande espírito de missão e ativismo político, que parece que com ele por cá não estaríamos neste imbróglio.

A ele devemos desenvolvimentos que contribuíram para os nossos queridos RSS feeds e Redditt. A ele, e ao que ele inspirou, se devem certamente projetos como o SciHub que assentam no ideal de que o conhecimento deve ser livre e gratuito, e não deve estar blindado dentro de sites caríssimos de editoras.

O problema é que quiseram fazer dele um exemplo do poder da justiça contra a pirataria, e foi demasiado. Aaron Swartz suicidou-se aos 26 anos. E deixou uma bonita herança.

Lady Bird, Greta Gerwig (2017)

Foi uma ótima escolha para um sábado à noite sozinha em casa. Lady Bird é uma rapariga chamada Christine que gosta de exercer o seu direito de escolha na pouca liberdade que tem. Não pode escolher o colégio onde estuda, mas pode escolher o seu nome, e decide chamar-se Lady Bird.

É decidida e ambiciosa, e nos seus 17 anos é muito centrada em si própria, vivendo alheada de todos os problemas familiares que se passam em casa. Aos poucos começa-se a aperceber deles. A depressão do pai, a sua dificuldade em encontrar emprego, os turnos duplos da mãe, a dificuldade financeira da família. Tudo isto não bate certo com as vidas endinheiradas dos seus colegas de escola. Lady Bird quer fazer tudo, muito e muito rápido.

Quer, acima de tudo, sair dali, de Sacramento, e estudar na costa leste onde “os escritores vivem nos bosques“. Tenta-o a todo o custo, mas às escondidas da sua mãe com quem tem uma relação muito fria, passivo-agressiva, e a quem implora o mínimo de carinho.

Lady Bird deixa de ser tão centrada em si para se centrar no mundo grande que a rodeia. E isso inclui o seu nome, a sua família e a sua cidade natal, a que afinal sentia muito amor.

The Social Dilemma, Jeff Orlowski (2020)

Pode ser assustador mas a mensagem para mim foi mais positiva do que de medo. É evidente que as opiniões estão muito polarizadas, muito infundadas e as redes sociais têm uma grande culpa nisso. As redes sociais e a forma como a tecnologia está desenhada para criar adição e facionar a população.

O documentário entrevista muitas ex-figuras das empresas da moda (apple, google, pinterest, facebook) que desmascaram uma série de estratégias para criar engajamento com a tecnologia por parte dos humanos. Nada de novo, tudo de feio.

A parte positiva é que o ex-designer ético da Google começou um movimento para humanizar a tecnologia (www.humanetech.com) que promove uma análise de consequências que todas as inovações possam ter na sociedade. Não desenvolver porque sim, mas desenvolver de forma sustentada e com respeito à ética de desenvolvimento, respeitando a figura central de tudo, que é o ser humano.

Música para ocasiões – Conventry Carol

Às vezes quando estou a correr e aparece uma música inesperada de que gosto, tento encaixá-la em ocasiões que podem ou não vir a acontecer na minha vida. Por exemplo, posso a qualquer instante ter de dançar Justin Timberlake com todos os moves certos. São coisas que imagino.

Mas quando ouvi esta música, pensei que era tão linda, e que era uma boa música para quando morrer. Como é um coro, não consegui perceber bem sobre o que era. Gosto muito de coros, e este tem aquele toque de Natal e de infância. Pois bem, acontece que é uma canção inglesa do século XVI e é sobre a matança dos inocentes pelo Rei Herodes, segundo o Evangelho de S. Mateus.

Já parece menos adequada – a não ser que a minha morte esteja associada a uma tragédia bíblica – mas não deixa de ser bela.

A música do mês de Agosto 2020

Já tenho idade suficiente para dizer que x ou y fazem parte da minha vida. O Bonnie faz parte há muitos muitos anos, e na verdade entrou com este álbum. Na altura deixava-me triste, imensamente triste. Hoje, já mais resolvida comigo mesma (tem dias), as músicas embalam-me, e este mês apeteceu-me ouvir esta em particular. Eu não sei sobre o que é mas desconfio que é sobre um animal que vai dar à luz. É muito doce e solitária, como quase todas do I see a Darkness. Um dos álbuns da minha vida. Ora aqui está outro plano.

Your little feet
Your sharp teeth
The way the light hits your eyes
Your scrappy fur
Your fists
The light from the Lord that shines inside

Inside of me
Inside of me
Something is growing
Something is glowing
Someone is showing

Sing a song for the new breed
Inside of me

Your deep growl
Your high whine
The uneven way that you move
Your pure heart
Your love
The Lord made you to prove something

Inside of me
Inside of me
Something is growing
Something is glowing
Someone is showing

Sing a song for the new breed
I could be right
Then you’d be right too

1 Second Everyday – Agosto 2020

Agosto começou de forma perfeita. Com um encontro com 10 pessoas a celebrar a união, que aconteceu ao pé de uma barragem com minis e música. Seguiu-se imenso trabalho de recolhas em hospital e chegaram as tão desejadas, tão merecidas férias no Algarve. Muito mar, sol, churrasco e livros. Foi uma semana demasiado curta, e ao subir parámos em Évora para conhecer o pequenote novo da rua! Os dias seguintes foram chuvosos, mas houve ainda assim idas a Caminha, gelados e praia. Comecei a subir ao Bom Jesus (~8km) ao fim do dia, e a correr nos outros dias. Cervejas em esplanadas e cervejas em equipa. Maravilhoso.


August started perfectly with a meeting of 10 people celebrating love, which happened at the foot of a dam with mini beers and music. A lot of hospital sound collections followed and the longed-for, well-deserved vacation in the Algarve have finally arrived. Plenty of sea bathing, sun, barbecues and books. It was a far too short week, and when we left we stopped in Évora to meet the young kid on the block! The following days were rainy, but there were still trips to Caminha, ice cream and the beach. I started going up to Bom Jesus (~8km) at the end of the day, and running in the other days. Beer on terraces and beers with my team. Wonderful.