Category: 2002 scrapbook

#3 Caderno de J.

“…digamos antes, Depois de amanhã, sempre teremos um dia de intervalo para mudar de opinião e projecto, porém ainda mais prudente seria dizer, Um dia decidirei quando será o dia de dizer depois de amanhã, e talvez nem seja preciso, se a morte definitiva vier antes desobrigar-me do compromisso, que essa sim, é a pior coisa do mundo, o compromisso, liberdade a que nós próprios negamos.”

– José Saramago, “O Ano da Morte de Ricardo Reis”

#2 Caderno de J.

O mar, por exemplo, que Deus lhe perdoe! Só serve para entristecer uma pessoa: só de olhá-lo um homem sente vontade de chorar. O medo apodera-se dos corações à vista daquela ilimitada extensão de água e não há nada que repouse os olhos fatigados pela infindável monotonia da paisagem. O rugido, o bravio tropel das vagas não acaricia o débil ouvido do homem; repetem uma melodia muito delas, lúgubre e misteriosa, sempre a mesma desde que o mundo é mundo; ouve-se constantemente o mesmo antigo queixume, o mesmo lamento, como o de um monstro condenado à tortura e soltando gritos horripilantes e sinistros.

Por cima dele não chilream as aves; somente as silenciosas gaivotas como no cumprimento de uma pena, voam tristemente de um lado para o outro ao longo da praia ou descrevem um círculo sobre as águas.

O rugido de uma fera é impotente diante destes gritos da natureza, a voz humana nada é, o próprio homem é tão pequeno e tão fraco, encontra-se completamente perdido entre os ínfimos pormenores do vastíssimo quadro!

Não, para mim não quero  mar!

F1000016

 

 

 

 

 

 

(Cabo Espichel, 2011)

– Ivan Goncharov

#1 Caderno de J.

18/05/2002

Sente-se.
Está sentado?
Encoste-se tranquilamente na cadeira.
Deve sentir-se bem instalado e descontraído.
Pode fumar.
É importante que me escute com muita atenção.
Ouve-me bem?
Tenho algo a dizer-lhe que vai interessá-lo.

Você é um idiota.
Está realmente a escutar-me?
Não há pois dúvida alguma de que me ouve com clareza e distinção?
Então
Repito: você é um idiota.
Um idiota.
I como Isabel, D como Dinis, outro I como Irene, O como Orlando, T como Teodoro, A como Ana.
Idiota.

Por favor não me interrompa.
Não deve interromper-me.
Você é um idiota.
Não diga nada. Não venha com evasivas.
Você é um idiota.
Ponto final.

Aliás não sou o único a dizê-lo.
A senhora sua mãe já o diz há muito tempo.
Você é um idiota.
Pergunte pois aos seus parentes
Se você não é um I.
Claro, a você não lho dirão
Porque você se tornaria vingativo como todos os idiotas.
Mas
Os que o rodeiam já há muitos dias e anos sabem que você é um idiota.

É típico que você o negue.
Isso mesmo: é típico que o I negue que o é.
Oh, como se torna difícil convencer um idiota de que é um I.
É francamente fatigante.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

– Bertolt Brecht