Category: livros

Clarabóia, José Saramago (1953,2011)

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Este livro tem uma história engraçada. Escrito em 1952, por um jovem Saramago, foi então recusado por uma editora. O manuscrito foi guardado, cada vez mais fundo nos confins da editora, até que o redescobrem, e propõem-se a editá-lo e Saramago terá dito “só por cima do meu cadáver” é que este livro será publicado. E assim foi, Clarabóia tornou-se no seu primeiro lançamento póstumo em 2011. Claro que eu só soube disto no final do livro, e durante toda a leitura, que foi tão agradável, tão meiga, tão sem aquelas provocações e deambulações do Saramago, achei que o personagem Silvestre, um velho e sábio sapateiro, era um reflexo do escritor no final da vida, a refletir sobre o que ela é, o que a faz valer a pena. Acontece que, se continuarmos o paralelismo cronológico, Saramago então poderia ser o jovem Abel, um pessimista, um niilista que vivia a “cortar tentáculos” com as coisas.

Como disse, o livro é meigo. A cadência é simples, as histórias miúdas. Retrata um prédio com os seus habitantes, famílias simples, pobres. No meio do deprimente, do triste, há sempre pequenos vislumbres do que estas pessoas são, que são mais do que a impressão que se tem delas. Têm sonhos, têm paixões, têm muita sabedoria e têm muita experiência. Têm vontades e tomam decisões. As histórias para lá das janelas e das portas de um prédio, são sempre muito mais complicadas do que o desenhamos rápido quando pensamos nelas.

Musicophilia, Oliver Sacks (2007)

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Estou na fase da vida em que penso muito na mortalidade das coisas, das pessoas. De como tudo de um dia para o outro pode mudar, como um aglomerado de partículas pode trancar o sangue e assim perderem-se memórias, hábitos, consciência. Este livro não é sobre isto, mas para mim foi. As histórias de pacientes brilhantes, músicos, académicos, que de um momento para o outro se viram vítimas de doenças incapacitantes, mas no meio das quais a música oferecia uma nesga de esperança e de vislumbre do que uma vez foram. Também há histórias contrárias, onde a música é uma maldição constante. O livro é, acima de tudo, sobre a maravilha do nosso cérebro, e como a força da música é tão grande, sendo também ainda um grande mistério.

Rugas, Paco Roca (2007)

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É aquele assunto que nos visita por vezes, quando vemos os nossos avós velhinhos, quando imaginamos os nossos pais a envelhecer. A natureza é má, e raramente leva seres intocados. Da terra para a terra, pelo caminho o corpo mirra, o cérebro perde o vigor, o treino, a sabedoria, as memórias.

E chegamos a velhos. E as opções que existem são tão más. E Paco Roca concentra todas as histórias num único lar de idosos. Conta como não fazem nada além de comer, dormir e ver televisão. Como o pior que pode acontecer é subir para o piso dos “inválidos”, mas paulatinamente todos lá terminam. E o pior é quem fica no piso de baixo, a vê-los a ir e a ficar sempre sozinho.

Neste livro temos uma ternura imensa, um humor à espanhola, e uma angústia constante ao assistir a alguém a desaparecer, sempre cheio de medo de desaparecer.

The Boxer: The True Story of Holocaust Survivor Harry Haft, Reinhard Kleist

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Herschel Haft nasceu na Polónia e tinha 14 anos quando a sua cidade de  Bełchatów foi das primeiras a ser invadida pelo exército nazi. No seio de uma família judia, rapidamente se viu condicionado pela pobreza e pela fome imposta pelos nazis. Com os seus irmãos, e após a morte do seu pai, montam um negócio de contrabando.

Assim vão vivendo, até que um dia todos os homens recebem uma notificação para se registarem. O seu irmão mais velho vai, e o jovem Hertzko, que ainda não tinha idade para ser convocado, começa a ouvir alguns homens dizer que quem se regista…já não volta. Temendo pelo irmão, Hertzko corre para o local do registo e encontra o seu irmão ainda à espera. Conta-lhe o que ouviu, e diz ao seu irmão para fugir. Decide então distrair os oficiais fingindo-se de bêbedo, e causa ali no meio da papelada algum celeuma, que o irmão aproveita para fugir. Os oficiais reparam, e decidem prender Hertzko para descobrir quem é que tinha fugido. Valente, não diz. Ao valente, entalam-lhe uma mão numa porta com toda a força. Valente, não diz nada. Ao valente, partem-lhe os ossos da outra mão, e ele continua sem dizer nada. “Não adianta”, pensam eles. “Vai este mesmo”. E atiram-no para um camião. Que depois será um vagão. Que depois se abrirá num campo de trabalho, o primeiro de muitos.

É assim, por acaso mas inevitável, que este miúdo de 14 anos fica completamente sozinho. Este rapazinho, impulsivo e tempestuoso, bronco mesmo, que não sabia ler nem escrever, tem o melhor instinto de sobrevivência, e desde a primeira viagem no vagão de gado decide que vai sobreviver – há uma menina envolvida, claro.

O seu primeiro trabalho é como Kommander, mas felizmente caiu nas graças de um oficial que o foi mudando para trabalhos mais leves a troco de alguma subtil pilhagem.

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Este mesmo oficial vê neste rapaz um potencial de entretenimento nos novos eventos de boxe das festas SS. Convida-o a lutar, treina-o, oferece-lhe umas luvas. Os companheiros de Hertzko aperceberam-se que ele é um protegido. Hertzko vai-lhes oferecendo o que pode, sabe que tem de estar bem com todos.

Chega o primeiro combate. Dizem-lhe que o seu oponente é um voluntário, lutará a troco de mais uma ração. Ao vê-lo, Hertzko percebe que não é voluntário nenhum. Está fraco, tão débil. Hertzko ganha o combate. Nunca mais vê o homem. Faz mais de 70 combates em campos de extermínio, ganha todos, nunca sabe o destino de quem perde. Desconfia.

E é esta a vida dele. Com o aproximar do exército vermelho as SS são cada vez mais duras, e as marchas da morte decorrem uma a seguir a outra. Ele vai sobrevivendo, com um dos irmãos. Com medo de morrer, decide fugir numa delas. E consegue. E vive escondido na floresta, mata, rouba, sobrevive e é encontrado por soldados americanos.

Vai para a América. Continua a praticar boxe. Luta contra o Rocky Marciano e perde.

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Casa-se, tem filhos. Nunca fala do que passou. É extremamente violento, pouco afetuoso. O filho tem vergonha dele, não gosta muito do que ele representa – o imigrante polaco que fala mal inglês e é o pobre dono de uma mercearia – mas só muito mais tarde descobre que o seu pai foi um dia “o animal judeu de Jaworzno “.

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A história é-lhe contada já em velho. Harry Haft (nome que adotou nos EUA), nunca leu outros relatos nem validou as suas memórias. Contou tudo tal e qual. E assim foi relatado, tal e qual, bronco, sem grandes emoções.

 

Tour de Armenia, Raffi Youredjian (2014)

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Não sou de compras impulsivas no que diz respeito a livros – até porque não me lembro de comprar livros (oferecem-me/emprestam-me) – mas recentemente foram três o que comprei às cegas:

Li rapidamente o primeiro, e encontrei nele o que procurava: uma introdução descontraída à Arménia, uma primeira pincelada pelas pessoas, as paisagens, e os nomes dos sítios.

O autor é filho de pais armenos, apesar de ter nascido nos EUA e ter-se mudado para Londres aos 16. No entanto, e isto é algo comum em todas as histórias, a família sempre fez questão de preservar a sua herança cultural, e o autor frequentou escolas armenas, sabe falar armeno, e passou diversas férias de Verão no país.

Foi portanto com algum relaxe que se aventurou numa viagem de 1000 km pela Arménia, sozinho, de bicicleta. A viagem pareceu-me que teve lugar por volta de 2011, e portanto o retrato é recente.

Num resumo apalavrado, foi isto que me ficou: muitos cães selvagens, algumas cobras nos campos de milho, muito pessimismo e dificuldades, o povo mais acolhedor, os melhores snacks, as paisagens mais virgens, solitárias, espantosas e belas, a simpatia e a vontade de conversar e convidar de todos.

Há fotos aqui.

Band of Brothers, Stephen E. Ambrose (1992)

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Depois de ver a série, surgiu a oportunidade de ler o livro. Foi uma boa leitura, transparece o companheirismo entre os homens, a irmandade criada, a admiração do autor. No entanto, não sei se a leitura seria a mesma não tivesse já visto a adaptação feita na série, conseguindo associar os momentos descritos a caras, a cenas. A escrita é histórica, muito factual, com alguma emoção mas não tanto como seria de esperar. Por vezes eram incluídos diários de soldados e aí sim, a leitura aligeirava e era mais familiar. Adorava as entradas do Webster. Agora tenho livros sobre o Pacific Theatre para pôr em dia.