Category: livros

Os cús de Judas, António Lobo Antunes (1979)

250x

Levei este livro para o Pico. Foi dos últimos livros que comprei (é raro comprar livros que não sejam técnicos agora…) e foi na altura em que andava a ler memórias de guerra da Iª e IIª GGM. Queria uma memória portuguesa de uma guerra portuguesa. Acontece que o escritor é impenetrável. Páro uma vez. Páro segunda. Pego nele para a terceira e não sei como, consigo terminar o livro mas sempre a achar que nunca o vou terminar, porque nunca me deixou de custar. É tão pequenino e tramado.

Estas histórias não são eventos concretos e cronológicos, são o shrapnel interno de tudo o que aconteceu, de como ficou profundamente e para sempre marcado pelo abuso que viu, pela morte evitável, pelas agonias de todos. Não há guerras boas, mas esta foi mesmo má, à portuguesa.

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O diário de meu pai, Jiro Taniguchi (1995)

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Este, sobre a reconstrução das memórias que o protagonista tinha do seu pai. Todas erradas, apercebeu-se no velório. Este fez-me chorar um bocadinho, porque é subtil e doce, com medo de extravazar muita emoção. Fica tudo contido.

Far Out isn’t Far Enough – Tomi Ungerer

9780714860770

Depois de ler este livro decidi ler um por mês, ora essa. Leio muito pouco hoje em dia, e este livro, que recebi no Natal, soube-me muito bem, todo ele lido no novo cadeirão da sala.

É um diário gráfico dos dois anos que o autor e a esposa passaram em Nova Scotia no Canadá, uma península isolada, fria, decadente, e linda. No final dos anos 70 – ainda viver no campo não estava na moda – o casal fartou-se de Nova Iorque e decidiu mudar de vida.

O autor é muito mordaz e humoroso quando retrata o seu dia a dia, entre o absurdo e o maravilhoso. Os habitantes da vila parecem loucos, cada um com a sua loucura, todos com vidas tramadas, pescadores que compram peixe congelado, que partem dedos e não fazem nada, que morrem com assustadora frequência e só levam com um “ora estás cá, ora não estás”.

E depois tiveram de se desenrascar. Cultivar, ordenhar, construir, matar e comer.

É um livro muito divertido de ler, parece um retrato fiel e, apesar de tudo, uma bonita homenagem a quem vive longe de tudo, com as dificuldades que isso traz.

Displacement, Lucy Knisley

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Esta semana recebi esta linda surpresa da r. Como tive esperas inesperadas em transportes públicos, li-o rapidamente, com alguma emoção aqui e ali.

Knisley volunteers to watch over her ailing grandparents on a cruise. (The book’s watercolors evoke the ocean that surrounds them.) In a book that is part graphic memoir, part travelogue, and part family history, Knisley not only tries to connect with her grandparents, but to reconcile their younger and older selves. She is aided in her quest by her grandfather’s WWII memoir, which is excerpted. Readers will identify with Knisley’s frustration, her fears, her compassion, and her attempts to come to terms with mortality, as she copes with the stress of travel complicated by her grandparents’ frailty. In beautiful, full-color watercolor pages, this book is a tribute to family, youth and age. (source)

Clarabóia, José Saramago (1953,2011)

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Este livro tem uma história engraçada. Escrito em 1952, por um jovem Saramago, foi então recusado por uma editora. O manuscrito foi guardado, cada vez mais fundo nos confins da editora, até que o redescobrem, e propõem-se a editá-lo e Saramago terá dito “só por cima do meu cadáver” é que este livro será publicado. E assim foi, Clarabóia tornou-se no seu primeiro lançamento póstumo em 2011. Claro que eu só soube disto no final do livro, e durante toda a leitura, que foi tão agradável, tão meiga, tão sem aquelas provocações e deambulações do Saramago, achei que o personagem Silvestre, um velho e sábio sapateiro, era um reflexo do escritor no final da vida, a refletir sobre o que ela é, o que a faz valer a pena. Acontece que, se continuarmos o paralelismo cronológico, Saramago então poderia ser o jovem Abel, um pessimista, um niilista que vivia a “cortar tentáculos” com as coisas.

Como disse, o livro é meigo. A cadência é simples, as histórias miúdas. Retrata um prédio com os seus habitantes, famílias simples, pobres. No meio do deprimente, do triste, há sempre pequenos vislumbres do que estas pessoas são, que são mais do que a impressão que se tem delas. Têm sonhos, têm paixões, têm muita sabedoria e têm muita experiência. Têm vontades e tomam decisões. As histórias para lá das janelas e das portas de um prédio, são sempre muito mais complicadas do que o desenhamos rápido quando pensamos nelas.

Musicophilia, Oliver Sacks (2007)

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Estou na fase da vida em que penso muito na mortalidade das coisas, das pessoas. De como tudo de um dia para o outro pode mudar, como um aglomerado de partículas pode trancar o sangue e assim perderem-se memórias, hábitos, consciência. Este livro não é sobre isto, mas para mim foi. As histórias de pacientes brilhantes, músicos, académicos, que de um momento para o outro se viram vítimas de doenças incapacitantes, mas no meio das quais a música oferecia uma nesga de esperança e de vislumbre do que uma vez foram. Também há histórias contrárias, onde a música é uma maldição constante. O livro é, acima de tudo, sobre a maravilha do nosso cérebro, e como a força da música é tão grande, sendo também ainda um grande mistério.