O grande rebanho, Jean Giono

É um livro sobre a I Grande Guerra Mundial, mas é diferente. Jean Giono, o autor, participou realmente nela, tendo vivido os momentos com mais carnificina da guerra, nomeadamente a batalha de Verdun (foi um dos 11 sobreviventes da sua companhia).

À sua maneira, retrata-se numa série de personagens oriundas da Provença, França. É uma história camponesa. Os homens convocados para a guerra eram essencialmente os jovens fortes e vigorosos que cuidavam dos campos e dos animais nas aldeias. Depois, iam até os doentes.

O livro começa com uma alegoria, que se desenrola ao longo da história, de um interminável rebanho liderado por poucos pastores, cansados, que não sabem bem o que fazer com as ovelhas fracas, exaustas, feridas. O paralelismo repete-se eventualmente com os soldados. A história fala dos homens de uma aldeia, que se vão, na esperança de que a guerra seja curta, sem saber muito bem o que vão enfrentar. Fala também dos velhos, mulheres e crianças que ficam nessa aldeia. O velho que teme diariamente pelo filho, a esposa que se depara com a lide dos animais e dos campos, sozinha, e a saudade e o desejo que a devora. A amante fresca, apaixonada. As mulheres que recebem a pior notícia amiúde. A aldeia que se reúne em velórios silenciosos e sem corpos. Tudo isto num cenário puro, com cheiros, descritos de uma forma de quem ama realmente a terra, um Alberto Caeiro que ama e cuida. Uma Primavera constante, contemporânea à morte e à lama.

Nas trincheiras acompanhamos também homens e rapazes que veem tanta carnificina, mas continuam dignos e com grandes atos de amizade. Nada realmente explícito e violento, mas tudo isto é refletido nos delírios, nas conversas, nas loucuras e medos dos soldados. Que regressam totalmente diferentes. E que lamentam ver a sua terra com corpos, com ratos, com buracos e com árvores mortas. Eles, camponeses tão amantes da terra, tão simples.

No meio de tudo, é um belíssimo livro, com uma escrita quase sensual, que destaca o amor à terra, à vida e à paz, essencialmente à paz.

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