Race for the South Pole: The Expedition Diaries of Scott and Amundsen (Roland Huntford)

Amundsen no Pólo Sul

Que leitura esplêndida e fresca nesta altura do ano. Se é sempre complicado agarrarmo-nos a um diário, neste caso deixa de o ser: estamos perante a competição mais épica da história moderna.

Em 1911 Amundsen e Scott preparam-se para serem os primeiros a chegar ao Pólo Sul, o último lugar na terra por conquistar.

Para o primeiro, norueguês, significava uma conquista importante para um país que adquirira recentemente a independência, mas acima de tudo, era um desafio pessoal.

Para Scott, o clássico englishman, era uma oportunidade para mostrar a grandiosidade britânica, na altura com o maior império colonial. Uma empreitada que pedia a heroicidade clássica, não sem o seu quê de sofrimento.

O autor do livro é extremamente parcial. O livro emparelha os diários de Scott e Amundsen, no mesmo dia. Amundsen era um homem de poucas palavras, pelo que a perspetiva nórdica foi complementada com os diários de Bjaaland, um campeão de ski com um sentido de humor terrível (maravilhoso!). Este diário foi pela primeira vez traduzido para inglês, à semelhança do de Amundsen, na íntegra.

Pontualmente, após vários relatos, o autor intervinha e comentava com comparações. Claro que a balança saía sempre a vencer para uma pessoa apenas: Amundsen.

E é o que nos faz o livro, deixa-nos completamente fãs de Amundsen.

[SPOILERS]

Senão vejamos. Amundsen começa por ser incrível por desafiar patrocinadores e ordens superiores de explorar o Pólo Norte. Apenas tendo o seu irmão como confidente, decide rumar ao Pólo Sul. Informa a sua frota apenas quando páram na Ilha da Madeira, e felizmente, todos alinham nesta rebelia deliciosa.

Scott, já avançado, descobre na Austrália que tem companhia na sua odisseia. Instala-se a competição, claro que muito subrepticiamente. Scott escrevia como se o seu único rival fosse Shackleton, o explorador britânico que anos antes tinha chegado mais a sul na Antártida – mas não ao Pólo.

As diferenças entre as duas expedições são imediatamente visíveis.

Amundsen estuda a cultura esquimó, prepara-se adequadamente, escolhe a dedo os poucos homens que o devem acompanhar, e adota um estilo de liderança muito aberto, sem segredos e sem decisões sem explicação. Oriundos da terra onde o ski é desporto nacional, todos o dominam. E todos são unânimes na importância que os cães “doggies” poderiam vir a ter na expedição.

Scott escolhe póneis. Traz alguns cães por teimosia de outrém. Traz motorizadas que nunca haviam sido experimentadas em neve. Traz uma expedição com dezenas de homens, poucos com competências úteis para a realização do objetivo. Muitos com todas as competências e mais algumas para a expedição científica que, por fachada, era.

O resultado não podia ser outro. A expedição norueguesa muito mais pequena, mais funcional e bem equipada, chegou primeiro ao Pólo Sul, com reservas de cerca de 500% a mais caso as coisas não corressem como planeado. Regressaram rapidamente ao ponto de partida, pois sabiam que não bastava serem os primeiros a chegar, tinham de ser os primeiros a dar a notícia. A expedição chegou intacta, com menos cães apenas.

Scott chegou muito mais tarde. Teve de matar os póneis pelo caminho. Pouco a pouco matou todos os cães. Acabaram por ser os seus homens a puxar os trenós. Andavam muito menos, cansavam-se mais, demoravam muito mais. As reservas não as suficientes, e a meio do caminho decidiu convidar mais um homem, reduzindo as rações de todos. Morreram todos a 11 milhas do próximo posto, o One Ton Depot. Subnutrição, desidratação, escorbuto, queimaduras. (E muita má língua, Scott!)

Fica a moral de Amundsen: “Victory awaits him who has everything in order. Luck, people call it. Defeat is certain for him who has neglected to take the necessary precautions in time. This is called “Bad Luck.”

Scott no Pólo Sul

2 comments

  1. Future Artist

    Outra grande diferença: Amundsen respeitava a Natureza, adaptava-se a ela com a pequenez de quem sabe que ela tudo pode. Scott acreditava na tecnologia acima da Natureza. Culpava todos os seus azares no mau tempo, e nunca na sua má preparação, mau equipamento e má escolha de animais.

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