#2 Caderno de J.

O mar, por exemplo, que Deus lhe perdoe! Só serve para entristecer uma pessoa: só de olhá-lo um homem sente vontade de chorar. O medo apodera-se dos corações à vista daquela ilimitada extensão de água e não há nada que repouse os olhos fatigados pela infindável monotonia da paisagem. O rugido, o bravio tropel das vagas não acaricia o débil ouvido do homem; repetem uma melodia muito delas, lúgubre e misteriosa, sempre a mesma desde que o mundo é mundo; ouve-se constantemente o mesmo antigo queixume, o mesmo lamento, como o de um monstro condenado à tortura e soltando gritos horripilantes e sinistros.

Por cima dele não chilream as aves; somente as silenciosas gaivotas como no cumprimento de uma pena, voam tristemente de um lado para o outro ao longo da praia ou descrevem um círculo sobre as águas.

O rugido de uma fera é impotente diante destes gritos da natureza, a voz humana nada é, o próprio homem é tão pequeno e tão fraco, encontra-se completamente perdido entre os ínfimos pormenores do vastíssimo quadro!

Não, para mim não quero  mar!

F1000016

 

 

 

 

 

 

(Cabo Espichel, 2011)

– Ivan Goncharov

One comment

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s