The Wonderful World of Albert Kahn

 

1915 (4)

Macedonia, 1915

Tinha esta imagem guardada no meu computador há anos. Adorava as cores, os trajes, o porte. Não sabia nada sobre ela.

Há uns dias li este post. Deixei o link guardado, e num Domingo pachorrento decidi ver o documentário de que falava, “The Wonderful World of Albert Kahn”, uma produção de sete episódios da BBC que pode ser visto na íntegra, embora não com a qualidade que merece, no Youtube.

Passadas duas horas estava encantada, passadas quatro estava impressionadíssima, passadas cinco estava a malfadar o dia seguinte de trabalho, e deixei a última hora para quando o conseguir terminar.

Albert Kahn nasceu na Alsácia, filho de judeus, e cedo se mudou para Paris. Aqui rapidamente se tornou um investidor de sucesso e um milionário com “caprichos” bem mais íntegros e filantropos do que o habitual: Kahn queria documentar o mundo onde vivia, e que se transformava rapidamente, no que chamou os Arquivos do Planeta.

Kahn sempre fora um entusiasta da fotografia, e assim que surgiu a possibilidade de tirar fotografias a cores de uma forma mais ou menos portátil (autochrome) – estamos a falar de finais do XIX inícios do século XX – Khan decide formar uma bolsa de fotógrafos e patrocinar viagens para todo o mundo, com o simples propósito de registar história, cultura, tradições, hábitos, roupas…

As imagens são lindas, e paralelamente também foram registados vídeos inéditos. Estes fotógrafos, e o próprio Kahn, foram os primeiros a tirar imagens a cores em sítios como o Brasil, China, Vietnam, Mongólia, etc.

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Irlanda, 1907

Na Irlanda uma fotógrafa registou a pobreza extrema de algumas famílias que estavam prestes a imigrar para a América face a ameaça da fome. Registou também os últimos resquícios de culturas celtas. O trabalhos, as cores.

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Mongolia, 1913

Na Mongólia, que acabara de se declarar independente do Império chinês, registou as roupas, as estepes, a vida nómada, os templos budistas que foram destruídos sem piedade anos depois. Os castigos arcaicos que aplicavam aos criminosos.

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Mongolia, 1913

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Mongolia, 1913

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India, 1913

Estes fotógrafos viajam por um mundo na berma de uma Guerra Mundial, em zonas de conflitos étnicos (os eternos Balcãs) e assistem às primeiras ondas de refugiados e de imigrantes. É incrível como tudo mudou tão rápido, e estes registos são verdadeiras relíquias.

Por exemplo, Kahn visitou a China em 1908, depois de passar pela America e Japão. Em 1908 a China era um Império já trémulo, mas o estilo de vida era ainda imperial. Lembro-me de uma historiadora comentar um tipo de cumprimento com duas vénias que desconhecia e nunca houvera visto a não ser nestes registos da vida quotidiana em Pequim!

Em 1913 Kahn envia de novo um fotógrafo para a China. Já é uma república, há estilos de roupa e de penteados instituídos pelo governo. Acabaram-se as tranças compridas dos homens, as maquilhagens extravagantes das mulheres.

E pouco depois eis que explode a Iª Grande Guerra Mundial. Kahn como pacifista era absolutamente contra, contudo, como patriota, gostaria de ajudar a França como melhor podia e sabia. Pediu autorização para registar a Guerra nas trincheiras, no campo de batalha.

E assim foi. Há imagens incríveis de momentos de tédio, momentos de tristeza, momentos normalíssimos como os desta imagem que se tornou clássica.

1914-1918

França, algures entre 1914-1918

O arquivo do planeta é uma ideia brilhante, que nos faz pensar no tempo e na cultura como areia que desaparece, que não conseguiremos nunca agarrar. Tudo muda e nem tudo fica, e isso tem um pouco de tragédia e de mistério.

Mesmo agora, em plena banalização e ubiquidade da fotografia e vídeo, conseguiremos registar todos os saberes que não acontecem frente ao computador?

 

Felizmente todos estes autochromes estão disponíveis no Museu Albert Kahn em Paris. Definitivamente a visitar!

Para já vou pensando na dificílima  tarefa de escolher duas ou três imagens para colar na parede.

 

 

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